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terça-feira, 20 de dezembro de 2022

Nangeli, a indiana que cortou seus seios para protestar contra um imposto

 via mdig

"Durante séculos, as castas ditaram quase todos os aspectos da vida religiosa e social da Índia, e cada grupo ocupa um lugar específico dentro da sociedade complexa e hierarquizada. Os dalit ou "intocáveis" são os membros mais pobres e discriminados na sociedade de castas. E Nangeli, como terão podido imaginar, era uma dalit, que vivia com seu marido Chirukandan, logicamente também dalit, em Cherthala, um pequeno povoado costeiro do reino de Travancore, hoje o estado de Kerala ao sul da Índia.

Nangeli, a mulher que cortou seus seios para protestar contra um imposto


Duas redes e uma cabana de pau-a-pique eram suas únicas posses. Por sua condição de intocáveis tinham muitas obrigações e impostos a pagar, entre eles o mulakkaram, o imposto dos seios que as mulheres dalit tinham que pagar se quisessem cobrir o busto.

Além de encher as arcas das classes superiores, este imposto servia para manter a estrutura de castas, já que o torso nu era um sinal de respeito para as castas superiores e, desta forma, também podiam se identificar simplesmente pela forma em que se vestiam. A roupa marcava a identidade social, e a parte superior assumiu um papel simbólico. Mesmo assim, se pudesse pagar podia cobrir.

As jovens adolescentes dalit recebiam a visita do cobrador público que estabelecia o imposto que deveriam pagar durante toda sua vida se desejassem se cobrir. E Nangeli, indignada e humilhada por aquela injustiça que só obrigava às mulheres de sua casta, um bom dia, no começos do Século XIX, disse basta.

Ela passeou pelas ruas de seu povoado com os seios cobertos sem ter pago previamente o imposto. Como era de esperar, uma vizinha linguaruda a denunciou e recebeu a visita do arrecadador do reino no seu barraco. Ele exigiu que pagasse o imposto, e, ato seguido, ela se negou. Depois de ameaçar com o castigo correspondente para aquela infração, Nangeli simplesmente pegou um ceifador de trigo e, diante de seus narizes, cortou os seios e entregou-os em uma folha de bananeira.

- "Pronto, se não tenho seios, não tenho que pagar o mulakkaram", disse a mulher.

O arrecadador, aterrorizado, sem poder dar crédito ao que acabara de ver saiu correndo. Quando Chirukandan regressou para casa naquele dia, encontrou o corpo de Nangeli em uma poça de sangue. Ela morreu devido a perda excessiva de sangue. Chirukandan morreria também horas depois, quando, perturbado, pulou na pira funerária em chamas da esposa. O casal não teve filhos.

O sacrifício não foi em vão. A notícia correu como fogo morro acima por todo o reino e muitas mulheres das castas inferiores se revelaram contra o pagamento do imposto, no que ficou conhecido como a revolta Channar.

Uma revolta que, reprimida em muitas ocasiões com brutalidade, as mulheres das castas inferiores mantiveram latente durante mais de 30 anos até conseguir seu objetivo. A rebelião atingiu tal envergadura que o governo britânico e os missionários cristãos pressionaram o governo de Travancore para que cedesse. E isso ocorreu em 1859. permissão para cobrir seus seios sem pagar nenhum imposto, mas mantiveram a restrição de que não podiam imitar o modo de vestir das mulheres das castas privilegiadas.

Durante muito tempo Cherthala ficou conhecida como Mulachiparambu, "a terra da mulher dos seios".

Nós não podemos cometer a leviandade de deixar de informar que esta história é amplamente vista como uma lenda urbana entre os círculos acadêmicos, mas ganhou ampla atenção desde a publicação de um artigo da BBC Ásia, que conversou inclusive com um suposto bisneto da prima de Nangeli, Maniyan Velu, que se disse chateado porque a história de Nangeli não é mais co

Tentando contentar a todos, às mulheres dalit agora tinham anhecida.

- "Seu ato foi altruísta, um sacrifício para beneficiar todas as mulheres de Travancore e, por fim, forçou o rei a reduzir o imposto sobre os seios", disse ele.

Um homem idoso, Maniyan não possui terras, e seus filhos trabalham na roça, mas ele não buscava caridade nem publicidade, apenas algum reconhecimento.

- "Estamos muito orgulhosos de ser sua família. Tudo o que queremos é que mais pessoas saibam sobre seu sacrifício. Seria adequado se o nome dela fizesse parte da história desta região", disse ele." 

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terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Kalbelyias: os ciganos indianos do Rajastão



Este filme sobre os Kalbelyias, um grupo cigano da Índia foi feito em 2015 pelo cineasta, músico e fotógrafo francês Raphael Treza em Pushkar, no Rajastão. Mostra um pouco do cotidiano deste grupo e foi transmitido no Discovery Channel Asia em 2020.
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domingo, 27 de novembro de 2016

Suporte


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quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Mulheres escrevem a Índia... Literatura indiana: 10 livros de escritoras sobre a Índia que você precisa ler


Estes são meus livros favoritos sobre a Índia disponíveis em português. Sim, eu sou apaixonada por literatura indiana e pelos livros do Salman Rushdie, mas a proposta é listar apenas livros de grandes mulheres escritoras: oito nascidas na Índia (ou de famílias de origem indiana) e duas brasileiras.

1) A SENHORA DAS ESPECIARIAS de Chitra Divakaruni.

A escritora nascida em Calcutá constrói uma narrativa bela e sensível, com descrições fabulosas de especiarias indianas e suas indicações. Tilo, a narradora deste romance, é uma mestre das especiarias que veio da Índia para uma cidade nos Estados Unidos, onde tem uma loja de produtos naturais indianos. Após uma longa aprendizagem desde a infância, ela está preparada para ajudar as pessoas com seus conhecimentos do uso das propriedades mágicas das ervas, até que se apaixona... 
Dá vontade de correr para o mercado, comprar as especiarias e utilizá-las em nossa casa! 
(Não indico, mas há um filme inglês "baseado" neste livro com a famosa atriz indiana Aishwarya Rai no papel de Tilo. Decepcionante!)


Escrito por uma jornalista nascida em Delhi este é um daqueles livros surpreendentes que parecem te tirar do eixo. São tantas representações e referências ao misticismo indiano, templos, gurus e práticas religiosas indianas que nos chegam através de filmes, livros, reportagens e documentários que constroem um imaginário sobre a Índia que não corresponde a realidade. A autora não desrespeita a cultura indiana e suas manifestações religiosas, mas os 13 ensaios geniais que compõem esse livro gravitam em torno de assuntos como a viagem dos Beatles na segunda metade dos anos 1960, os gurus do sexo tântrico e as práticas de meditação transcendental que fazem sucesso no Ocidente. Gosto de outros livros dela, mas este é o livro que eu sempre recomendo aos amigos que querem viajar para a Índia ou estão encantados com o misticismo indiano... 

3) O DEUS DAS PEQUENAS COISAS de Arundhati Roy

Arundhati Roy nasceu no nordeste da Índia, mas foi criada no Kerala, onde se passa este seu único romance (os seus outros livros são não-ficcionais). É a escritora com a trajetória pessoal mais interessante e já veio ao Brasil participar do Fórum Social Mundial de 2003 em Porto Alegre. Filha de uma ativista pelo direito das mulheres, ela é ativista política anti-globalização, crítica da política capitalista norte-americana e da democracia.
Mas esta biografia fascinante não bastaria para expressar minha admiração por este livro encantador. Um romance sobre memórias de infância, sobre o cotidiano de uma família no sul da Índia, sobre a doce simplicidade das pequenas coisas...  

4) UM LUGAR PARA TODOS de Thrity Umrigar

Esta é a autora indiana que eu melhor conheço visto que todos os seus livros foram traduzidos e publicados no Brasil e já foi tema de uma pesquisa minha para uma disciplina na universidade. Umrigar nasceu em Mumbai em uma família "não indiana" parse. É jornalista e professora universitária e (como algumas das mulheres desta lista) atualmente vive nos Estados Unidos. 
Este é o seu primeiro romance (e o terceiro traduzido e publicado no Brasil) e retrata a vida dos moradores de um edifício em Mumbai. Sua narrativa é rica de informações sobre a identidade étnica e a memória do povo parse, sobre diversidade cultural, cotidiano, família e relacionamentos. Este não é o livro mais popular dela, mas é o meu favorito e trata de assuntos que vão se repetir posteriormente em outros de seus romances e na sua autobiografia.     

5) ISHQ & MUSHQ: AMOR & CHEIRO de Priya Basil

Priya Basil tem família de origem indiana, nasceu em Londres, cresceu no Quênia, voltou para Londres para estudar literatura e vive em Berlim. O livro foi publicado em 2007, ganhou vários prêmios e foi traduzido no Brasil no ano seguinte. É um livro encantador e a narrativa me manteve envolvida até a última página. 
A fórmula poderia parecer batida: o cotidiano e os dramas familiares de um grupo de imigrantes indianos. Mas esse livro é interessantíssimo pela abordagem desse universo multicultural indiano/não-indiano. Há um pouco de tudo no enredo: um grande segredo familiar, mentiras, memórias de infância, relacionamentos intensos, crises identitárias, trajetória de adaptação de uma família indiana no Quênia e depois na Inglaterra, tudo isso em meio a uma personagem central, Sarna, construída com maestria.  

6) CABINE PARA MULHERES de Anita Nair

Este é um livro sobre mulheres fortes! 
A autora, Anita Nair nasceu no Kerala e hoje vive na cidade de Bangalore com sua família. Este é o seu livro mais conhecido e o título se refere aos espaços reservados para as passageiras mulheres nos trens indianos. Neste vagão-leito, seis mulheres de idades, classes e regiões diferentes da Índia viajam e compartilham suas histórias. São histórias sobre experiências femininas, sobre a condição da mulher, sobre seus anseios e conquistas. 
Viajando na "Cabine para Mulheres" estas mulheres estariam longe dos olhos dos homens, sejam eles seus pais, irmãos, maridos ou filhos. A narradora é uma destas seis mulheres e é ao longo da viagem que vamos nos aproximando e conhecendo um pouco mais sobre cada uma delas. Um livro fascinante!

7) O XARÁ de Jhumpa Lahiri

Este é o primeiro e premiado romance da autora filha de imigrantes indianos de Bengala, nascida em Londres e criada nos Estados Unidos. Além de escritora, ela mora em Nova York e é professora universitária. Tem uma larga formação acadêmica e já havia publicado seleções de contos.
Este livro não é só mais um sobre uma família de imigrantes indianos nos Estados Unidos, tentando criar seus filhos sob influência de uma "cultura indiana" no Ocidente. O personagem principal é Gógol Ganguli que tem nome russo, sobrenome indiano e cresce buscando sua identidade em meio a conflitos de culturas e de gerações da sua família.
O título original do livro é "The Namesake" e há uma adaptação cinematográfica com o mesmo nome, dirigida pela cineasta indiana Mira Nair que eu recomendo!

8) O DOM de Nikita Lalwani

Lalwani nasceu no Rajastão, foi criada no País de Gales, vive atualmente em Londres e este é seu primeiro romance. Conheço pouco sobre a autora e sua obra, mas li que ela apoia a luta por direitos humanos.
Sobre este livro, a personagem principal do livro é Rumika Vasi, filha de indianos nascida na Inglaterra, com talento fora do comum para matemática. A personagem vive um conflito entre sua base familiar conservadora e religiosa e seus desejos e anseios. Ao entrar na universidade com apenas catorze anos de idade, experimenta novas possibilidades e vivências... 


9) POEMAS ESCRITOS NA ÍNDIA de Cecília Meireles

Em 1953, a escritora, professora e poetisa brasileira Cecília Meireles viajou para a Índia e recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de DelhiPioneira na divulgação da literatura indiana no Brasil, ela era tradutora de Tagore para o português e esteve uma vez na Índia, aos 52 anos de idade. Cecília escreveu diversas crônicas e poemas, retratando suas impressões sobre a viagem durante os dois meses  de sua estada. Considerava estes como os seus mais valiosos registros. Em 1961, 59  poemas foram publicados com o título de "Poemas escritos na Índia" e somente em 2014 foi lançada a segunda edição cuja capa reproduzo ao lado.
Aqui você pode acompanhar alguns dos meus poemas prediletos deste livro, postados anteriormente no blog. 

10) ARQUEOLOGIAS CULINÁRIAS DA ÍNDIA de Fernanda de Camargo-Moro

Este livro, produzido após três décadas de viagens e pesquisas pelo subcontinente indiano, foi escrito partindo de anotações de viagem e pesquisa da Historiadora, Arqueóloga e Museóloga brasileira Fernanda de Camargo-Moro. Sim, porque caso você não saiba, alimentação também é História!
Por ser historiadora, está aqui nesta minha lista de melhores livros. Não sei como costuma ser classificado, mas este não é um livro de receitas, apesar de ter várias receitas, não é um livro de viagens, apesar de falar sobre elas, não é um livro de antropologia, apesar desta estar constantemente em pauta... Tem desde receitas tradicionais e clássicas, até algumas inusitadas. É escrito numa linguagem acessível, com um glossário maravilhoso.
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terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Sandália de noiva indiana


Os pés da noiva já estão pintados com henna, dá para ver um pedaço da roupa vermelha (cor das noivas indianas) e essa sandália é a coisa mais linda do mundo!

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domingo, 11 de janeiro de 2015

O Orientalismo de Ruth Saint Denis

Ruth Saint Denis
Um tempo atrás havia visto e me encantado com as imagens desta bailarina em um artigo sobre Orientalismo em Hollywood que citava o livro Visions of the East: Orientalism in Film de Matthew Bernstein e Gaylyn Studlar.

Ruth Saint Denis
Ruth Saint Denis
Ruth Saint Denis

Em 1906, em Nova York a bailarina Ruth Saint Denis mostrou seu primeiro solo, Rhada, que foi apresentado por ela até seus 80 anos de idade (veja aqui um trecho de "The Delirium of Senses" from Radha)  neste link da UCLA Library você pode ver mais fotografias da bailarina com as referências.

Ainda não li, mas há um livro em português que referencia a bailarina e seu marido, também bailarino, Ted Shawn:

BOURCIER, Paul. História da Dança no Ocidente. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

*   *   *
"Ruth Saint Denis (20 de janeiro de 1879 – 21 de julho de 1968) foi bailarina, coreógrafa e pedagoga Americana, nascida em New Jersey e criada em uma fazenda por seu pai, mecânico desempregado e sua mãe, que tinha um diploma de medicina. Esse fato fez com que ela entrasse em contato com movimentos filosóficos e religiosos. Por morar em uma fazenda, Ruth desenvolveu desde pequena sua fascinação pelos elementos da natureza, despertando assim seu interesse pelos aspectos espirituais da ‘’mãe natureza’’.
Ruth Saint Denis pode ser considerada a pioneira da dança moderna americana, se destacou por suas apresentações orientais e pelo seu interesse pelo exotismo, misticismo e a espiritualidade presente em seus estudos.
Em suas coreografias misturava os conceitos do físico e da divindade, isso fez com que ela estudasse inúmeras religiões ao longo de sua vida. Para ela a dança era um ritual e uma prática espiritual.
Desde nova foi influenciada a estudar a dança, fazia aulas de ballet com a bailarina italiana Maria Bonfante, porém, apenas em 1892 iniciou sua carreira profissional em New York, trabalhando em um museu e em casas de Vaudeville com seu número ‘’A Ruth Only’’. Quando sua família se mudou para o Brooklyn, Ruth se deparou com uma variedade de literaturas, fazendo assim com que estudasse e se aprofundasse ainda mais em suas práticas espirituais. Ela aprendeu sobre o budismo e desenvolveu isso em suas práticas coreográficas que se fundiram rituais espirituais com a dança e o movimento.
Em 1898, Ruth é descoberta por David Belasco, produtor da Broadway bem sucedido que a contrata para ser bailarina de sua empresa de grande porte. Em uma produção chamada ‘’Zaza’’, David coloca Ruth em contato com outros artistas de New York, Europa, Ásia, Japão e França. As ideias inovadoras de Ruth foram destruídas por esses artistas, porém, isso fez com que cada vez mais ela não desistisse de seus interesses pelas culturas orientais. Pouco depois, em 1900, ela começou a construir suas próprias ideias sobre a dança/drama, baseada nas técnicas de dramatização de sua inicial formação e seus estudos sobre filosofia, ciências e histórias de antigas culturas.
Em 1904 em uma de suas viagens com Belasco, ela observa em um outdoor de propaganda de cigarros, a imagem da Deus Egípcia do amor e da magia, com o nome de Ísis. Esse fato fez despertar seu interesse sobre o Egito e a Índia. A partir disso Ruth criou sua coreografia chamada ‘’Radha’’, que foi apresentada até seus 80 anos de idade.
Trabalhos mais famosos:
  • O Incenso
Solo curto que se baseava em um ritual da queima de incenso hipnotizante, era caracterizado por movimentos rápidos e a encarnação de uma mulher, em movimentos ascendentes entre espirais de fumo.
  • As cobras
Obra que se passa em uma rua indiana, ela encarna um encantador de serpentes, usando braços e com seus anéis de esmeralda que representavam os olhos da cobra, encantando o público.
  • Radha
Se baseia na dança de um templo indiano, explorando o ‘’delírio dos sentidos’’ evocado através de exóticos trajes e cenografia.
Entre suas inúmeras colaborações para a dança, ela foi a fundadora da Denishawn (Escola de dança) e em 1938 criou o programa de dança da Universidade Adelphi, um dos primeiros departamento de dança em uma universidade norte-americana."
Biografia Via Wikidança

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segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Antes que eles deixem de existir ! ?





Via IdeiaFixa

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quarta-feira, 20 de junho de 2012

Diwali by Chanel.

O que você achou do Diwali, o novo esmalte da Chanel que leva o nome do festival indiano das luzes?
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quarta-feira, 16 de maio de 2012

From Brazil to India: Giselli Monteiro



Veja quem eu encontrei enquanto estava navegando pelo catálogo de produtos da empresa que eu comprei meu último saree...

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domingo, 19 de fevereiro de 2012

Filhas da Deusa

Estou acabando a leitura de Filhas da Deusa de Linda Johnsen. Me impressionei com a quantidade de mulheres líderes espirituais na Índia e compartilho aqui um questionamento que está na "orelha" do livro: "E se a nossa cultura desse mais valor às mulheres espiritualizadas do que àquelas que se destacam profissionalmente?"


"Há séculos já estava escrito nos livros sagrados que, nesta época em especial [Kali Yuga, a Idade das Trevas], os cegos estariam na liderança, conduzindo pessoas surdas que não queriam ouvir de modo algum. Portanto, é uma péssima combinação." (JOHNSEN, 2009, Pág. 105)



JOHNSEN, Linda. Filhas da Deusa: as mulheres santas na Índia de hoje. 2ª ed. Rio de Janeiro: Nova Era, 2009.


Título Original: Daughters of The Goddess

Copyright © 1994 by Linda Johnsen
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sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Escolhendo a nora perfeita!

"Em dado momento, toda família com filho tem de conseguir uma nora. A garota que fosse se casar com o filho da casa deveria ser de boa família. Deveria ter uma personalidade agradável. Seu caráter deveria ser decente e não desavergonhado e atrevido. A garota deveria manter os olhos baixos e, como seria humilde e tímida , deveria também manter a cabeça baixa. Ninguém quer uma garota que encara as pessoas com olhos enormes de sapo. Deveria ser clara, mas, se fosse morena, o dote deveria incluir pelo menos um dos seguintes itens: um aparelho de televisão, uma geladeira, um armário de aço Godrej e, talvez, até mesmo uma motoneta. A garota deveria ser boa aluna e demonstrar proficiência em uma variedade de campos diferentes. Quando cantasse, a sua voz deveria ser doce como o mel e provocar lágrimas de alegria. Quando dançasse, as pessoas deveriam exclamar "Ahhh!", com um prazer estupefato. Deveria ficar claro que ela não dançaria e não cantaria depois de casada e não envergonharia a família. A garota deveria ter passado em todos os exames no primeiro grau, mas escutaria respeitosamente as prelações dos futuros parentes sobre diversos temas em que eles próprios haviam sido reprovados  na escola secundária.
Não deveria ser aleijada. Deveria dar alguns passos, delicadamente, os pés pequenos sob o sári. Não deveria dar passos largos  nem erguer as pernas como um cavalo. Deveria sentar-se em silêncio, com os joelhos unidos. Deveria falar só um pouco para mostrar que não era muda, mas não falar demais. Poderia dizer apenas uma palavra, ou talvez duas, depois de ter sido insistentemente solicitada com adulação: "Somente algumas frases. Somente uma frase." (...)
Ela não poderia ser gorda. Deveria ser agradavelmente rechonchuda, com quadris largos e seios grandes, mas a cintura fina. Embora generosa e bem-humorada, a garota deveria ser frugal, e não do tipo que esbanja a riqueza da família. Uma garota que, embora calada, fosse capaz de discutir o preço dos legumes e pechinchar com os vendedores, de reconhecer todos os seus truques sujos e expô-los. Conversas sobre marido e filhos deveriam lhe causar timidez e embaraço a ponto de ela ter de ocultar o rosto, vermelho como um botão de rosa, na dobra de seu sári.
Então, se tivesse preenchido todos os requisitos de um caráter sólido e talento admirável, se seus pais tivessem concordado com todas as contribuições financeiras necessárias, se os adivinhos tivessem concluído que as estrelas era favoráveis e os planetas compatíveis, todos poderiam rir aliviados e erguer o queixo e dizer que ela era exatamente o que estavam procurando, que ela seria uma filha em sua família. Essa é, afinal, a família do garoto. Estavam à altura de seu senso de orgulho." 


(DESAI, Kiran. Rebuliço no pomar de goiabeiras. Rio de Janeiro: Record, 2000. pág. 62-63)
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segunda-feira, 18 de abril de 2011

Bailadeiras, as Devadasis de Goa...

Alguma vez você já ouviu falar em "prostitutas sagradas" da Índia? Meninas e mulheres que dedicam-se à antigas práticas culturais num arranjo ímpar entre religiosidade e sexualidade?

"A prática de oferecer meninas a divindades na esperança de conseguir fertilidade e prosperidade não é exclusiva da Índia. Na Itália, por exemplo, era costume oferecer uma "vestal virgem" durante a época da colheita de uvas, e as civilizações da Mesopotâmia, Babilônia, Egito, Síria e Grécia usavam moças para aplacar os deuses." (Devadasis, as servas da deusa)

Na postagem sobre as Devadasis (leia novamente clicando no link acima) o nosso querido Evandro do blog A vida numa Goa comentou sobre seu encontro com as bailadeiras goesas durante sua viagem à Índia. Segundo ele, é mais um dos aspectos culturais tipicamente indianos, ou seja "complexo, ambíguo, difícil..." E põe difícil de entender para nós, os ocidentais não é mesmo Evandro?

Evandro (de camiseta branca) com as Bailadeiras de um templo em Goa. (Foto gentilmente cedida para esta postagem)

Desde que chegaram nas terras do reino no além mar, os cronistas portugueses nas colônias lusitanas no Oriente dedicaram-se a registrar as práticas culturais dos nativos. Seus diários, correspondências e publicações testemunham acontecimentos de uma época singular na História da Humanidade: o choque cultural Ocidente X Oriente ("Civilização" versus "Barbárie") nos séculos XVI, XVII e XVIII. Os elementos culturais, alimentação, vestimenta, habitação, língua, organização política, religião, trabalho, etc. dos povos orientais destacavam-se nestes registros e demonstravam os olhares de estranhamento e até mesmo aversão à algumas destas práticas. O preconceito, a distorção e a incompreensão levaram estes ocidentais à classificar estes "outros" como incivilizados, irracionais, bárbaros, justificando desta forma a dominação imposta aos mesmos.
E é mais ou menos esta a visão que os portugueses tinham dos indianos no período da expansão ultramarina. Boa parte destes cronistas eram religiosos, militares ou ocupavam cargos administrativos à mando de Portugal, sua visão de mundo etnocêntrica, católica, ocidental e paternalista, denuncia o rigor a que submetiam suas análises dos nativos orientais. Neste contexto é que eles descrevem as bailadeiras de Goa como dançarinas, "artistas de segunda classe", prostitutas à serviço dos templos e não poupam críticas em relação à estas "mulheres públicas".
* * *

Leia abaixo trechos do Glossário Luso-Asiático sobre o termo "Bailadeira":

"Bailadeira (Balhadeira, p.us.). É a mulher que na Índia dança por profissão. Vive geralmente ao pé do pagode e exerce a prostituição. O célebre chinês Hiuen Thasanf, peregrino budista do século VII, faz menção de bailadeiras que cantavam constantemente num pagode de Multane. Os franceses e os ingleses transformaram bailadeira em bayadère, que alguns portugueses empregam por não conhecerem na língua vernácula termo equivalente! Em indo-inglês usa-se mais dancing-girl, ou nautch-girl, que tambêm significa o mesmo. Em concani chamam-lhe kalävant ou kalvant, "artista". V. Gonçalves Viana, Palestras. 
[...]
1577.- "As balhadeiras, em que está toda a felicidade dos infieis destas partes são libertas de todas as tyranias e vituperios acima ditos; são molheres publicas que por dinheiro se não negão a ninguém, as quaes andão bem ataviadas  e acompanhadas; chamão lhe balhadeiras, por que balhão, cantão, tangem, volteão, muito bem ao seu modo". - Primor e Honra. fl. 9.
[...]
1603. - "No segundo sobrado hião muitas molheres, das que chamão bailadeiras dos Pagodes, que todas são publicas, deshonestas, e ganhão com suas torpezas pera o Pagode, as quaes hião dansando e cantando, e bailando". - Fr. Antonio de Gouveira, Jornada do Arcebispo, fl. 39.
[...]
1697. - "Bayladeiras se chamão na India as mulheres publicas, que habitão nos pagodes; por que todas baylão, e cantão... Recolhiãose tambem neste pagode as viuvas, que se não atrevião a queymar vivas com os maridos como costumam alguns destes barbaros". - P. Francisco de Sousa, Oriente Conquistado, II, r, 1.
[...]
1825. - "As bailadeiras são dançarinas da segunda ordem; recebem egual educação; mas não ficam sendo propriedade dos pagodes" (como as devadasis q.v.). - José Inácio de Andrade, Cartas, r, p. 48.
[...]
1877. - "As bailadeiras formam na India uma instituição monstruosa, anomala, aos olhos dos christãos. Como as sacerdotizas de Vesta, ellas alimentam no templo o fogo sagrado, e, como as bacchantes das saturnaes, são votadas aos prazeres lascivos dos seus voluptuosos senhores". - Tomás Ribeiro, Jornadas, II, p.102.  
[...]
1886. - "As kalavontes são mais conhecidas pelo nome de bailadeiras, que lhes deram os primeiros portuguezes, que vieram á India". - Lopes Mendes, A India Portuguesa, II, p. 34." 

(DALGADO, Sebastião Rodolfo. Glossário Luso-Asiático*. Parte II. Hamburg: Buske, s/d. Páginas 80 e 81.)
*Reimpressão da edição original de Coimbra, 1919.
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sexta-feira, 1 de abril de 2011

Diva!

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quarta-feira, 30 de março de 2011

Miniaturas indianas: jovem mulher tomando banho no rio.

Jovem mulher tomando banho no rio. Miniatura indiana. Século XVIII. Paris, Museu Guimet.

Repare nas jóias que adornam seu corpo. Ela está com a palma da mão e a planta dos pés coloridas de vermelho, seu longo cabelo é negro e ela não está completamente despida, visto que há um tecido da cor rosa envolvendo parte do seu corpo, outro tecido ao seu lado e mais um pendurado na árvore onde pousa um pássaro branco.

ROLLAND, Jacques-Francis. Historama. Vol.2. Buenos Aires, Editora Codex, 1972. Pág. 164.
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sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Devadasis as servas da deusa

Numa tradição que vem do século 9, meninas indianas são destinadas por suas famílias para servir à deusa Yellamma. Sua tarefa: atender aos desejos sexuais dos homens de suas comunidades.



Sentada na casa de sua família, na cidade indiana de Gokak, Kavita Kurbati, de 18 anos, aguarda um cliente numa tarde de quinta-feira. Suas filhas, Rakshita, de 3 anos, e Chaitra, de 1, dormem tranquilamente a seus pés. Quando Kavita chegou à puberdade, sua mãe, recorrendo a uma antiga tradição ligada à deusa hindu Yellamma, designou a filha para tornar- se uma devadasi, ou "serva da deusa". Isso significa que Kavita não pode desposar um mortal. Em vez disso, como uma forma de agradar Yellamma e trazer mais sorte para sua família, ela serve como uma "prostituta do templo", satisfazendo as necessidades sexuais dos homens de sua comunidade.

Embora sua posição como "prostituta do templo" tenha raízes numa complexa tradição religiosa praticada na Índia desde o século 9, Kavita, como uma moderna devadasi, é basicamente uma trabalhadora sexual comum. Com seus ganhos de cerca de 300 rúpias (pouco mais de US$ 6), ela sustenta a mãe, o pai, três irmãs, dois irmãos e as filhas.


Acima, Kavita Kurbati, com suas filhas, aguarda um cliente.

Seu ritual de consagração - realizado em sua própria casa e pouco parecido com os enfeitados ritos das devadasis do passado - foi uma espécie de cerimônia de casamento curta, durante a qual um muttu (colar de contas vermelhas e brancas) foi colocado ao redor de seu pescoço, simbolizando seu status de serva de Yellamma. O sacerdote que celebrou a cerimônia foi pago com presentes e dinheiro. Ele, por seu lado, usou parte do que recebeu para recompensar a intermediária que recrutou Kavita

O sacerdote teve seu pagamento, a intermediária também, a família de Kavita ganhou uma fonte de renda garantida e os homens da comunidade conseguiram acesso sexual a uma bela jovem. Mary Malappvgol, amiga de Kavita, também foi tornada devadasi e, conforme acerto com o sacerdote do templo, levada para Puna, uma cidade ao sul de Mumbai, onde ela trabalhou num bordel. A experiência de Mary é a mais recente encarnação do sistema devadasi, que agora canaliza garotas de famílias de castas mais baixas para a lucrativa indústria do sexo nas cidades indianas.

A prática de oferecer meninas a divindades na esperança de conseguir fertilidade e prosperidade não é exclusiva da Índia. Na Itália, por exemplo, era costume oferecer uma "vestal virgem" durante a época da colheita de uvas, e as civilizações da Mesopotâmia, Babilônia, Egito, Síria e Grécia usavam moças para aplacar os deuses.

O poder da sexualidade e suas conexões com a fertilidade da terra são encontrados em muitos mitos pagãos e drávidas (o povo drávida foi um dos primeiros a habitar a Índia), e há relatos antigos sobre práticas parecidas com as das devadasis em templos budistas e jainistas. Além disso, sacerdotes de templos que se diziam representantes de divindades masculinas ocupavam lugar central no ritual de consagração das devadasis e, com freqüência, eram os primeiros a iniciar sexualmente as meninas, num rito que imitaria um "encontro sexual divino".

Acima, uma devadasi rende culto a Yellamma.

No passado, apenas as jovens mais bonitas eram escolhidas como devadasis e trabalhavam no templo, ajudando o sacerdote no culto à deusa. Assim como as gueixas japonesas, elas cantavam e dançavam, e eram sustentadas pelos homens mais ricos da comunidade, a quem serviam como parceiras sexuais. Elas frequentemente ganhavam lotes de terra de reis ou homens de castas superiores, e a elite as convidava para casamentos e outros eventos importantes. As devadasis eram reverenciadas e ocupavam uma posição de respeito na comunidade.

Quando chegaram à Índia, os britânicos, com seu olhar cristão, se horrorizaram com o sistema devadasi. Assim, durante seu domínio, a posição das devadasis foi depreciada. Embora seu simbolismo religioso e sua função sexual na sociedade permanecessem, elas não tinham mais o sustento econômico do passado

No passado, as devadasis eram reverenciadas e ocupavam lugar de destaque na comunidade. Após a chegada dos britânicos, porém, sua posição se degradou até chegar à da prostituta sagrada


Acima, duas meninas fazem suas orações matinais na escola da Vimochana Sangha, para filhas de devadasis.

Com o tempo, sua posição se degradou até chegar à da prostituta sagrada cujos ganhos beneficiam o templo, os sacerdotes que nele trabalham e, de alguma forma, sua própria família. Uma nova versão do sistema devadasi começou a emergir, no qual a devadasi virou a engrenagem central na bemazeitada máquina econômica de Yellamma. Para esse sistema se perpetuar, suas crenças religiosas têm de ser reafirmadas sempre. Os devotos de vilas, pequenas cidades e até áreas distantes - em geral, gente pobre e inculta - têm sido encorajados a visitar o templo para cumprir os rituais de culto a Yellamma.

Os fiéis ouvem que um único dia sem novos seguidores no templo de Yellamma atrairia a ira da deusa e traria desgraças à terra. Dias auspiciosos (terças e sextas- feiras), épocas de lua cheia e festivais anuais atraem grandes levas de adeptos. Durante esses dias, as lendas ganham dramatizações que reforçam a necessidade constante de os fiéis cultuarem a deusa e lhe fazerem doações.

Uma garota pode virar devadasi por várias razões. Cabelo embaraçado (em geral consequência de má higiene), doença de pele e deficiências físicas como a cegueira são considerados cartões de visita de Yellamma. Famílias sem dinheiro para o dote da filha também tendem a fazer dela uma devadasi como meio de se livrar de seu sustento; outras, sem filhos homens, com frequência escolhem uma filha como devadasi, tornando-a o "filho" que vai sustentar a família.


Acima, jovem se banha numa área de banho comunitária durante o Yellamma Yatra, em Saundatti.


Atualmente, estima-se que haja cerca de 250 mil devadasis nas províncias de Karnataka e Maharashtra, no oeste da Índia. Assim como Kavita Kurbati, muitas sustentam famílias numerosas. Sheela Kallimani, de 18 anos, foi dedicada à deusa quando tinha 4 anos e, ao atingir a puberdade, começou a trabalhar com sexo, na casa de sua família. Jovem e bonita, ela ganha mais de US$ 20 por freguês - uma quantia obscena se comparada aos poucos dólares que a maioria das prostitutas cobra. Embora tenha chegado ao 7º ano do ensino básico e, diversamente da maioria das devadasis, seja alfabetizada, Sheela aceita sua situação. "Não quero fazer esse trabalho, mas minha família precisa de mim para isso", ela se resigna. "Eu sempre uso preservativo", avisa.

O principal evento ligado ao culto é o Yellamma Yatra, festival anual realizado em Saundatti (no norte de Karnataka) no qual meninas são ritualmente oferecidas à deusa. O Yatra começa na lua cheia no mês indiano de Magh (janeiro/fevereiro) e atrai cerca de 500 mil peregrinos.Segundo a lenda, após três meses de abstinência sexual, Yellamma tem de ser redespertada sexualmente. Mas seu marido, Yamadagni, é assassinado.


No alto, adeptos chegam para o festival. A maior parte dos fiéis da deusa tem origens sociais modestas.

Se não houver uma divindade masculina para despertá-la sexualmente, ela ficará infértil. De algum modo, porém, Yamadagni é ressuscitado e o despertar sexual de Yellamma acontece. Com seus poderes sexuais restaurados, sua capacidade de abençoar os adeptos fica mais potencializada e deve ser aprimorada.

As devadasis, suas contrapartes sexuais humanas, são dedicadas a ela em grande número e seu defloramento simboliza a reunificação de Yellamma com Yamadagni Durante o festival, os adeptos fazem promessas à deusa, que incluem doar renda, produtos agrícolas ou gado, desfilar nu, prostrar-se ou - o mais relevante - doar uma devadasi. Essa última doação implica uma complexa série de ações, tais como banho ritual, esfregar açafrão na testa da menina, pôr pulseiras verdes em seus pulsos e um muttu em seu pescoço.

Muitas devadasis de mais de 44 anos (quando são consideradas velhas para o trabalho sexual) assumem o papel de jogathi ("voluntárias"), figuras importantes na perpetuação do culto, em especial durante o festival. Elas em geral vivem no templo e ouvem as queixas e desejos dos fiéis, que depois descrevem à deusa. Também podem visitar lares de adeptos, ouvir suas necessidades e, em certos casos, agir como médiuns por meio das quais Yellamma se manifesta. Algumas devadasis mais idosas, porém, mendigam perto da entrada dos templos. Com frequência, os adeptos de Yellamma mais escolarizados tendem a achar as práticas e superstições de sua fé questionáveis. Mas romper com sua família e comunidade e converter-se a outra religião é difícil, pois, na cultura indiana, a coesão familiar é colocada acima de tudo.

Festivais anuais dedicados a Yellamma atraem grande número de adeptos, cada qual com sua promessa

Desde os anos 1940 têm sido feitas tentativas para romper o sistema devadasi, com poucos resultados positivos. Uma lei de 1982 do governo de Karnataka, que pune com multa e até cinco anos de cadeia o responsável pela conversão de uma mulher a devadasi, é de difícil aplicação, pois o processo exige evidência fotográfica do ritual de consagração. Essas cerimônias continuam a ser feitas sem problemas, à noite, nos festivais, ou nos lares das famílias das devadasis. Em 1985, o advogado B.L. Patil fundou uma organização, a Vimochana Sangha, dedicada a erradicar o sistema devadasi. Ele foi fortemente influenciado por um professor que preparava sua tese de doutorado sobre o sistema. "Visitamos o distrito de prostituição em Mumbai e lá havia uma alta porcentagem de devadasis de nossa área (norte de Karnataka), o que me causou uma profunda impressão", explica o advogado.

A Vimochana iniciou um programa de conscientização nas comunidades devadasis. Assistentes sociais visitaram esses locais e tentaram convencer as mulheres de que outros prosperavam à sua custa. Os adeptos da deusa, porém, não foram receptivos e proibiram a presença das devadasis nos encontros. Em 1990, a Vimochana fundou a primeira escola para filhos de mulheres devadasis. No primeiro ano, 50 alunos viveram e tiveram aulas na casa de Patil, na vila de Malabad.

No segundo ano, o número de crianças dobrou, e, no ano seguinte, a organização teve de alugar outras duas casas para alojar mais alunos. Por fim, graças a doações de parceiros e de um lote de terra cedido por sua esposa, Patil ergueu um edifício escolar com quartos para os alunos. As matrículas chegaram a 450, incluindo crianças de castas baixas cujas mães não eram devadasis. "Um dos impedimentos das crianças devadasis é que elas recebem apenas o sobrenome da mãe", explica o professor e conselheiro Girish Chandra. Com isso, podem ser discriminadas até mesmo ao pleitear empregos. A escola tem-se esforçado para incluir o nome do pai quando é possível identificá-lo.

Muitos dos formados na escola se tornaram enfermeiros por meio de uma escola de enfermagem fundada pela Vimochana. Outros seguiram carreira como professores, engenheiros e profissionais da computação, entre outras atividades. "O mais importante é que mais de 300 garotas estão casadas e vivendo no seio da sociedade", orgulha-se Patil. Apesar do êxito da escola, muitas famílias de alunos têm reservas sobre deixar suas filhas estudar além de certa idade. "Algumas garotas têm de se casar aos 12, 13 anos, mesmo sendo excelentes alunas", lamenta Chandra.

A Vimochana e outras organizações criaram programas para educar e reabilitar devadasis e outras trabalhadoras sexuais em Karnataka. Um dos objetivos centrais é prepará-las sobre temas de saúde, em especial a Aids. Os programas oferecem treinamento em profissões como editoração eletrônica, montagem e administração de salão de beleza, fabricação de incenso, conserto de TVs e celulares. Embora tenham relativo sucesso, esses programas enfrentam um obstáculo: em vários casos, as devadasis ganhariam mais fazendo sexo do que atuando na nova profissão.

Pesquisa: Equipe Planeta Fotos: Julia Cumes/Zuma Press/ Keystone

REVISTA PLANETA - EDIÇÃO 437 
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