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domingo, 13 de dezembro de 2015

A cidade não conta o seu passado, ela o contém...



"A cidade se embebe como uma esponja dessa onda que reflui das recordações e se dilata. Uma descrição de Zaíra como é atualmente deveria conter todo o passado de Zaíra. Mas a cidade não conta o seu passado, ela o contém como as linhas da mão, escrito nos ângulos das ruas, nas grades das janelas, nos corrimãos das escadas, nas antenas dos pára-raios, nos mastros das bandeiras, cada segmento riscado por arranhões, serradelas, entalhes, esfoladuras."

CALVINO, Italo. As cidades invisíveis. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p.14.

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sábado, 14 de março de 2015

Ishq & Mushq - Amor e Cheiro

BASIL, Priya. Ishq & Mushq: amor e cheiro. Tradução Inês Cardoso. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.

"Por que será que olhar para o horizonte nos deixa reflexivos? Talvez, se pudéssemos continuar enxergando para além das fronteiras do nosso campo de visão, nos distraíssemos para sempre de nós mesmos." (p. 26) 

"Nenhuma história é a história de um homem só. Tudo o que aconteceu a Dharji foi por causa de alguma outra coisa, de alguma outra pessoa ou ocorrência." (p.43)

"Ninguém pode saber as desavenças e os silêncios que ligam duas pessoas." (p. 61)

"- Você não confia em ninguém - Karam balançava a cabeça - porque você não confia em si mesma. Não sei o que se passar por essa sua cabeça, mas sei que nós julgamos os outros pelos nossos próprios padrões, e, a seus olhos, ninguém é bom." (p. 129)
"As circunstâncias eram totalmente diferentes, mas as duas mulheres foram movidas pelo mesmo impulso. Foram seduzidas pela possibilidade de reinvenção. Ambas acreditaram na ilusão de que a felicidade podia ser encontrada em algum outro lugar - se elas pudessem simplesmente chegar a este lugar. Mas você carrega a si mesmo a qualquer lugar que vá - essa era a lição que Sarna nunca aprendera e que Pyari ainda teria que descobrir. Ela pensou que, ao afastar a mãe intrometida, encontraria paz. Mas parece que você carrega também a família onde quer que vá. Eles estão lá no caráter, nos hábitos que você desenvolveu e nas rugas que envelhecem seu rosto, aumentando a semelhança com eles. (...) A família está lá também nas obrigações e nas expectativas que, mesmo quando nunca ditas, você sabe que é responsável por satisfazer. A família pode se fazer presente em qualquer lugar, como conforto ou fardo." (p. 294-295)

"- Essa vida não é fácil. Ser mulher é sofrer. Sofrer. Quando você compreende isso, tudo fica mais fácil de aceitar." (p. 387)

"- Sabia que em alguns países do Oriente Médio cortejam-se os convidados pela quantidade de açúcar que é colocada no chá deles? Quanto mais você gosta de uma pessoa, mais adocica a bebida dela. E o convidado tem que tomar tudo, não importa quão doce esteja, senão ele corre o risco de ofender o dono da casa." (p. 397)

"Ele começou a dirigir para trás porque, depois de um acidente, o carro não andava mais para a frente. Acho que depois disso ele ficou afetado por essa nova perspectiva das coisas e decidiu continuar assim e fazer disso sua filosofia de vida. Eles parece estar dizendo agora a todos que às vezes 'você pode melhorar uma situação indo na contramão, andando para trás'." (p. 425)

"Mas os sentimentos suscitados pelos filmes estão fadados a morrer frente à mais leve cutucada da realidade." (p. 431)


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domingo, 18 de janeiro de 2015

Afrodisíacos: O desbravamento sensorial dos portugueses no Caminho das Índias


Sim, era preciso conservar os alimentos por mais tempo e amenizar o cheiro e sabor de estragado, mas não se engane achando que as especiarias vindas do Oriente serviam "apenas" como temperos...

Imagem do filme "The Mistress of Spices" baseado na obra de Chitra Divakaruni.
"O estímulo renovado dos sentidos foi uma das facetas mais exuberantes do Renascimentos, não apenas na expressão artística, mas também no desenvolvimento de uma sensualização dos costumes. Portugal era a porta de entrada desses produtos. Se, por um lado, o reino não conheceu a exaltação pictórica, poética, gastronômica e luxuriosa do corpo, ele constituiu-se na placa giratória que distribuía especiarias de luxo vindas do Oriente para as cortes da França e das ricas cidades italianas.

Um dos cronistas a perceber o desbravamento sensorial vivido pelos portugueses foi Garcia da Orta. De origem hebraica e amigo de Camões, ele dedicou-se ao estudo da farmacopeia oriental. A descoberta de novas faunas e flores permitiu-lhe saudar, com entusiasmo, os afrodisíacos largamente utilizados nesta parte do mundo. Ele não apenas menciona a cannabis sativa, banguê ou maconha, mas exalta também as virtudes do ópio. Fundamentado em sua convivência com os indianos, Orta sabia que o ópio era usado como excitante sexual capaz de duas funções: agilizar a "virtude imaginativa" e retardar a "virtude expulsiva", ou seja, controlar o orgasmo e a ejaculação. Além desses dois produtos, Orta menciona o bétel, uma piperácea cuja folha se masca em muitas regiões do oceano Índico, lembrando sobre o seu uso que "a mulher que há de tratar de amores nunca fala com o homem sem que o traga mastigado na boca primeiro"."

(DEL PRIORE, Mary. Histórias íntimas: sexualidade e erotismo na história do Brasil. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2011, p. 37-38.)
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segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Alma e self na filosofia indiana

"[...] na filosofia indiana em particular, há um interesse notavelmente sutil e complexo por diferentes sentidos de alma e self e sua relação com pessoas (parusha). Há jiva, que representa o self individual. Há Atman, que representa o self maior, cósmico, que todos partilhamos, e depois há Brahman, a realidade única, abrangente." 

SOLOMON, Robert. Espiritualidade para céticos: Paixão, verdade cósmica e racionalidade no século XXI. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. p. 272.

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domingo, 10 de agosto de 2014

Razão e emoção

"Entre os muitos significados sugeridos para os conceitos de razão e racionalidade, nenhum foi mais destrutivo que aqueles que opõem sistematicamente a razão à emoção, isto é, que opõem racionalidade como sensatez a emocionalidade como insensatez. Ser racional é ser desapaixonado, "indiferente", não movido pela emoção. Ser emocional, em contraposição, é ser cego para a razão. Penso que esta oposição entre racionalidade e emoção precisa ser reconsiderada, e a prioridade dada à razão desapaixonada (ou sem paixão) profundamente questionada."

SOLOMON, Robert. Espiritualidade para céticos: Paixão, verdade cósmica e racionalidade no século XXI. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. p. 156-157.

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Realidade, pensamento e maya

"[...] os pensadores bramânicos chegaram à conclusão de que o par percebido de opostos reflete a natureza não das coisas, mas da mente que os percebe. O pensamento percebedor deve transcender-se, se quer atingir a realidade verdadeira. A oposição é uma categoria da mente do homem, e não em si mesma um elemento da realidade. No Rig-Veda, o princípio é expresso desta forma: 'Sou os dois, a força da vida e a vida material, os dois ao mesmo tempo'. A consequência final da ideia de que o pensamento só pode perceber em contradições encontrou seguimento ainda mais drástico no pensamento vedântico, que postula ser o pensamento - com toda a sua fina distinção - 'apenas um horizonte mais sutil de ignorância, de fato o mais sutil de todos os enganadores recursos do maya'.

FROMM, Erich. A arte de amar. Belo Horizonte : Itatiaia, 1990. p.104-105)
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Sobre a disciplina como expressão da vontade própria

"O oriente reconheceu há muito tempo que aquilo que é bom para o homem - para seu corpo e sua alma - deve também ser agradável, ainda que no princípio se torne necessário superar certas resistências."

(FROMM, Erich. A arte de amar. Belo Horizonte : Itatiaia, 1990. p. 146)
 
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sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Olhares oblíquos e penetrantes



"A Ásia também tem a sua voz atraente, o seu calor úmido no qual os corpos e as almas se dissolvem, os seus olhares oblíquos e penetrantes. A Ásia também tem a sua arte sublime, os seus risos, os seus mitos, as suas vozes submissas, os seus pés descalços,  a sua poeira e as suas flautas.


Mas há um mal-estar enorme naquele calor úmido, seus olhares de aço são severos demais, assim como há história demais naqueles ritos e mitos, miséria demais naqueles pés descalços e naquela poeira.(...)"

(DE MASI, Domenico. O ócio criativo. Rio de Janeiro: Sextante, 2000. p. 334)
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Educar para o ócio...

"Educar para o ócio significa ensinar a escolher um filme, uma peça de teatro, um livro. Ensinar como pode estar bem sozinho, consigo mesmo, significa também levar a pessoa a habituar-se com as atividades domésticas e com a produção autônoma de muitas coisas que até o momento comprávamos prontas. Ensinar o gosto e a alegria das coisas belas. Inculcar a alegria."


(DE MASI, Domenico. O ócio criativo. Rio de Janeiro: Sextante, 2000. p. 325)
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Se sentir em casa...


"O cigano se sente em casa em qualquer lugar."

(DE MASI, Domenico. O ócio criativo. Rio de Janeiro: Sextante, 2000. p. 164)
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terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

O que sempre esteve lá...

"Milan Kundera comenta (em L'Art du roman, 1986): "Escrever significa para o poeta romper a muralha atrás da qual se esconde alguma coisa que 'sempre esteve lá'." Sob esse aspecto, a tarefa do poeta não é diferente da obra da história, que também descobre, e não inventa: a história, como os poetas, descobre, em sempre novas situações, possibilidades humanas antes ocultas."

In BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. p. 231.

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Nômades na encruzilhada das culturas

"Em vez de ser sem pátria, o segredo é estar à vontade em muitas pátrias, mas estar em cada uma ao mesmo tempo dentro e fora, combinar a intimidade com a visão crítica de um estranho, envolvimento com distanciamento - o que as pessoas sedentárias dificilmente aprendem." 

(BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. p. 236)

   Estive pensando sobre esta questão de estranhamento...

   Ao olhar para as coisas que estão ao teu redor como se fossem estranhas, creio que o contrário também seja válido. Algumas vezes temos uma estranha familiaridade com coisas que não são da nossa pátria, nem do grupo que nascemos.

   Será que estamos mesmo vivendo em uma encruzilhada de culturas e cada um de nós é um nômade que constrói sua identidade como uma colcha de retalhos do mundo?

   Por que esta bobagem bairrista de achar que o lugar de onde veio é o melhor do mundo e os outros estão aquém? Há alguma lei que nos obrigue a exaltar maravilhas do lugar onde nascemos? Sofreremos sempre algum tipo de punição quando ousarmos questionar e criticar algum aspecto da cultura "nativa"?

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quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

A cidade, o barulho e a noite...

Qual o som da sua cidade quando a noite cai? 
Como você silencia sua mente? 
Quais os sons que você identifica quando está tudo quieto na hora de dormir?
Quais murmúrios não te deixam dormir?



"Sabe-se que a cidade é um mar barulhento; já se disse muitas vezes que Paris faz ouvir, no meio da noite, o murmúrio incessante das ondas e das marés."

(BACHELARD, Gaston. A Poética do Espaço. São Paulo: Martins Fontes, 1993. p.45)

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