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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

A longa história d’As Mil e Uma Noites

Gênios, tapetes voadores e lâmpadas mágicas: boa parte do imaginário fantástico que associamos ao Oriente Médio vem d'As mil e uma noites. Entenda como esse livro de contos compilado por um francês moldou as ideias e preconceitos do Ocidente sobre o folclore árabe.

Por Maria Clara Rossini para Super Interessante em 15 jul 2024


A versão mais antiga da história de Aladdin não foi escrita em árabe. O primeiro manuscrito conhecido sobre o jovem que encontra a lâmpada maravilhosa está em francês. Essa narrativa aparece pela primeira vez no nono volume do livro Les mille et une nuits (“As mil e uma noites”), compilado por um orientalista chamado Antoine Galland no início do século 18. As versões em árabe desse conto são traduções ou adaptações que surgiram após a publicação na Europa.


O mesmo vale para Ali Babá e os quarenta ladrões, que está no décimo volume do livro. Ambos foram considerados contos órfãos, já que não era possível determinar sua origem nem autoria. Por algum tempo, acreditou-se que o estudioso francês – que colhia e compilava narrativas folclóricas do Oriente Médio para o público europeu – havia inventado essas histórias do zero. Mas hoje temos certeza de que não é o caso.


Boa parte do imaginário do Ocidente sobre a cultura árabe vem d’As mil e uma noites. Isso vale mesmo que você nunca tenha lido uma única página do livro. Ele é uma colcha de retalhos costurada por uma história principal, chamada “narrativa moldura”. O modelo de contar histórias dentro de histórias não é inédito de Noites, e já existia principalmente na cultura indiana. Mas o livro árabe se tornou um dos maiores exemplos desse tipo de narrativa. Aqui vai um resumo:


Xariar, o rei da Pérsia, descobre que sua esposa o está traindo com um escravo. Depois de matar os dois, o rei se convence de que nenhuma mulher no mundo é confiável. Ele decide se casar e dormir com uma moça virgem a cada noite, só para matá-las na manhã seguinte. Desta forma, Xariar garante que nunca mais seria traído.


Após muitas noites, uma jovem chamada Sherazade se oferece como noiva do rei, dizendo que irá acabar com o massacre das mulheres. Na primeira noite, ela começa a contar uma história, mas não chega ao final dela. Xariar, querendo saber como a história termina, decide poupar a moça para ouvi-la na noite seguinte. Sherazade termina uma história e logo em seguida começa outra, salvando sua pele sucessivamente ao longo das noites.


As edições atuais não têm 1.001 contos, e nenhuma edição conhecida teve. É provável que essa seja apenas uma figura de linguagem. Na prática, há pouco menos de 300 deles – a quantidade exata depende da tradução. Além disso, a distribuição das narrativas não rende exatamente uma fábula por noite. Afinal, o segredo para salvar a vida da noiva é justamente interrompê-las (para os curiosos, ao final deste texto contaremos se Sherazade sobrevive ou não).


Agora, sem interrupções, vamos entender como As mil e uma noites chegaram até nós. Essa é uma epopeia por si só, que conta muito sobre os fetiches, preconceitos e fascínios dos leitores e acadêmicos europeus, revela a relação da fé islâmica com as crenças que existiam antes dela e mostra que criaturas como os gênios estão no seio da história cultural do Oriente Médio.


Quem escreveu As mil e uma noites?


O final do século 17 foi o auge da popularidade dos contos de fadas. Em 1697, um escritor chamado Charles Perrault publicou um livro com várias das histórias da tradição oral europeia, chamado Contos dos tempos passados. Lá estavam Bela Adormecida, Chapeuzinho Vermelho, Cinderela, Gato de Botas e outros. Foi um best-seller entre as madames da aristocracia francesa.


Nessa época, Antoine Galland trabalhava como antiquário e numismata – especialista em moedas – do rei Luís XIV. Ele viajava ao Oriente Médio com o objetivo de coletar dinheiro, medalhas, manuscritos e velharias em geral para a coleção do excêntrico ​​Rei Sol. Galland foi assistente do intérprete Barthélemy d’Herbelot, com quem montou uma coleção de textos e traduções de história e ciência árabe. No mesmo ano em que Perrault apresentou seus contos à França, Galland publicou uma obra chamada Biblioteca oriental, ou dicionário universal relativo a tudo que diz respeito ao conhecimento das pessoas do Oriente. Pouco pretensioso (rs).


A literatura árabe não era o principal interesse da Coroa, mas Galland viu uma oportunidade no contexto cultural da época. Ele considerava os contos do Oriente melhores do que aqueles que estavam circulando entre as dondocas na França, e havia boatos da existência de uma fonte inesgotável deles. “Galland ouve falar que os contos árabes isolados fazem parte de um conjunto maior de histórias, e começa a buscar esse conjunto com a ajuda de amigos na Síria”, diz Christiane Damien, que escreveu sua tese de doutorado sobre As mil e uma noites (1).


O primeiro conjunto de narrativas traduzido por Galland foram as lendas do marujo Simbad – que, depois, ganharam dezenas de adaptações cinematográficas e televisivas no Ocidente. A obra original consiste em sete contos que descrevem suas viagens fantásticas. Galland entrou em contato com esses manuscritos durante uma viagem à Turquia, e os traduziu para o francês na década de 1690 (2).


A história de Simbad ficou na gaveta por alguns anos, esperando o que seria o maior achado de Galland: um manuscrito intitulado Alf Laylah wa-Laylah – traduzido ao pé da letra, “As mil noite”. Lá estavam a história-moldura de Sherazade e os contos que ela narrou para entreter o sultão. Essa relíquia está guardada até hoje na Biblioteca Nacional da França. Posteriormente, por causa da encadernação, o manuscrito foi dividido em três, que hoje estão etiquetados com os números 3609, 3610 e 3611.


Há um debate acadêmico em torno de quando esses documentos foram escritos. Curiosamente, considerando que Galland era um numismata, as hipóteses se baseiam nos tipos de moedas mencionadas nos contos, e como elas se relacionam com a época e região em que eles circularam. O mais aceito é que Alf laylah wa-laylah data dos séculos 14 ou 15, e é de origem síria.


Essa ainda não é a fonte original de Noites. O texto sírio descende de um outro conjunto de histórias chamado Hazār afsāna, que significa “Mil contos” no idioma persa. Ele reúne lendas da Índia, Grécia e da Pérsia (atual Irã). Os arqueólogos nunca encontraram um manuscrito desse livro, mas ele é mencionado em outros textos árabes desde o século 9. O que sabemos é que em algum momento ele foi traduzido e adaptado para o árabe.


“Esse livro se transformou completamente. A ponto de falarmos hoje que ele é um livro árabe”, diz Damien. “Mas temos fragmentos de manuscritos que indicam que o Hazār afsāna estava vivo e circulando no mundo árabe na Idade Média. Ele ainda não era As mil e uma noites, mas já continha algumas histórias presentes nele.”


As adaptações árabes desse clássico persa foram se combinando até dar origem ao manuscrito encontrado e traduzido por Galland. O primeiro volume do livro As mil e uma noites, contos árabes traduzidos em francês foi publicado em 1704. Foi um sucesso instantâneo. Galland enxertou os contos de Simbad no terceiro volume do livro, mesmo que essas histórias não fizessem parte do manuscrito original.


Havia uma demanda eorme por mais contos árabes, o que fez Galland ir atrás de outros manuscritos originais para abastecer o mercado. Ele encontrou, por exemplo, textos egípcios que contêm a narrativa moldura de Sherazade, mas com alguns contos diferentes. Isso é o que os historiadores chamam de “ramo egípcio” de Noites. No final das contas, o francês acabou publicando conteúdo autêntico de pelo menos seis manuscritos árabes, mais alguns manuscritos turcos.


Mesmo após centenas de histórias traduzidas, ainda havia demanda do público e da editora. Galland publicou o sétimo volume de Noites em 1706, já sem saber onde procurar mais manuscritos. Para preencher espaço, seu editor acabou incluindo dois contos de uma outra coleção turca – que nada tinha a ver com Noites – no oitavo volume do livro, em 1709. E essas histórias haviam sido resgatadas por um outro orientalista francês: um rival de Galland chamado Pétis de la Croix (3).


A concorrência era tão dura que, no ano seguinte, De la Croix publicou um um livro chamado Os mil e um dias, procurando surfar no sucesso estrondoso de Galland. Tratava-se de uma adaptação de uma coleção turca intitulada Ferec ba‘d eş-şidde – mas De la Croix mudou e cortou diversos trechos, buscando encaixar as histórias no contexto pop da época.


Tanto Galland como De la Croix só souberam dessa gambiarra depois que o oitavo volume estava publicado, e ambos romperam com a editora La Maison Barbin. Esse entrave acabou servindo para que Galland tivesse tempo de ir atrás de mais histórias. No nono volume do livro, já com outra editora, ele adiciona dois contos célebres que não estão em nenhum manuscrito que conhecemos hoje: Aladdin e Ali Babá.


O francês teria inventado essas histórias? Por séculos, tudo levava a crer que sim. Mas isso mudou em 1881, quando o diário de Galland foi encontrado e publicado. Lá, ele explica que ouviu e leu as histórias de um jovem sírio chamado Hanna Diyab em 1709.


As suspeitas se dissiparam de vez quando um relato de viagem do próprio Hanna Diyab foi traduzido ao francês em 2015 e depois publicado em árabe em 2017. Diyab não só confirma que repassou algumas histórias a Galland como relata experiências pessoais semelhantes às aventuras do personagem Aladdin. Quando era jovem, Hanna participou de uma escavação subterrânea em que foram encontrados um anel e uma lâmpada – dois elementos centrais na narrativa.


É possível, portanto, que a história seja um misto de tradição oral com fundo autobiográfico. Não sabemos o quanto Galland mudou essas fábulas (como fez em outras histórias d’As mil e uma noites) para adaptá-las ao gosto do público, mas é fato que o resultado final é um trabalho conjunto entre os dois.


Em 2018, um professor do Instituto Nacional de Línguas e Civilizações Orientais (Inalco), na França, disse ter encontrado o manuscrito original de Aladdin que Hanna Diyab teria entregue a Galland. A notícia gerou um alvoroço entre pesquisadores, mas até agora esse manuscrito não foi publicado. Talvez o texto seja ilegível, ou o professor esteja blefando. De toda forma, até onde sabemos, o documento permanece desaparecido.


O conto de Aladdin original, diga-se de passagem, é bem diferente da versão da Disney. Para começar, Aladdin é da China – embora o ambiente descrito na história seja idêntico ao Oriente Médio. O personagem é convocado por um feiticeiro do norte da África para resgatar tesouros em uma caverna, e então conquista a mão de uma princesa (chamada Badroulbadour) com fortunas, como um castelo incrustado de joias.


A principal mudança é que Aladdin não encontra um, mas dois gênios na história. Um deles está preso em um anel, e ajuda o personagem a sair da caverna. O outro é o gênio da lâmpada, que concede três desejos a Aladdin depois que ele já saiu do subterrâneo.


Mais do que realizadores desejos, os gênios são figuras centrais do folclore árabe, tão antigos que não há como cravar quando ou onde eles surgiram. No Oriente, eles são mais conhecidos por seu nome original: jinn.


Seu desejo é uma ordem


Os estudiosos da literatura árabe criticam a tradução de jinn para “gênio” em português. Há uma similaridade fonética, mas não de sentido. O acadêmico Mamede Jarouche, que fez a primeira tradução d’As mil e uma noites do árabe direto para o português, explica que os jinn têm mais a ver com entidades da mitologia grega chamadas daemons.


Daemons eram divindades menores ou espíritos protetores que povoavam o panteão helênico; o mais famoso deles talvez seja Eros. Os jinn eram, grosso modo, um equivalente árabe pré-islâmico dos daemons – acreditava-se que os poetas árabes fossem inspirados por essas entidades. “Quando Maomé começa suas pregações [nos séculos 6 e 7 d.C.], muitos árabes que se opunham ao islã diziam que ele não era um profeta, que estava apenas possuído por jinn”, diz Jarouche.


Segundo o folclore árabe, os jinn foram criados a partir do fogo sem fumaça. Eles têm forma gasosa e vivem em uma espécie de plano intermediário, podendo se tornar visíveis aos humanos ou não. Existem jinn de ambos os sexos, eles podem ser bons ou maus, e em geral agem visando interesses próprios. Os jinn também podem se disfarçar de animais.


A mitologia em torno deles era tão forte na região que eles acabaram incorporados ao livro sagrado do islamismo. Os jinn seriam uma das três criações divinas, junto com os anjos, feitos a partir da luz, e os humanos, que vieram do barro. A septuagésima segunda surata (capítulo) do Alcorão é dedicada inteiramente a eles: o texto descreve o momento em que um jinni (jinni é o singular de jinn) ouve as pregações e se converte ao ao islã.


“Antes da chegada de Maomé, os jinn eram vistos como seres maiores, com status mais proeminente”, diz Damien. “Depois, o texto corânico diminui os poderes deles […] recomenda-se que os fiéis não mantenham contato com essas figuras.” Entre os jinn, também existem aqueles que são muçulmanos e os que não creem em Alá.


Dá para ir mais fundo na história. Segundo Al-Tabari, um dos principais historiadores e comentadores do Alcorão, os jinn foram criados e habitaram a Terra antes dos humanos. Mas eles acabaram expulsos após entrar em guerra com os anjos. Tempos depois, retornaram ao mundo se infiltrando nos lugares mais desprezíveis, como os desertos, esgotos e ruínas.


E o gênio aprisionado na lâmpada? Essa ideia surge com a narrativa islâmica de que Salomão, rei dos israelitas, teria recebido um anel de Deus para controlar e encapsular os jinn revoltosos. Deus também oferece ao rei o poder de controlar os ventos – dessa forma, Salomão sobe em um tapete e voa para onde quiser. É possível que os contos com tapetes mágicos (que também aparecem em Noites) tenham derivado dessa história.


Vale lembrar: jinn e outros seres míticos existem desde o período pré-islâmico, mas os textos principais que deram origem ao livro d’As mil e uma noites foram adaptados para o árabe após o surgimento do islamismo, entre os séculos 6 e 7. O folclore do livro, então, acaba se misturando com as narrativas religiosas.


Os jinn aparecem em muitas histórias d’As mil e uma noites, soltos ou aprisionados, de forma que seria difícil listar todos os casos. Uma curiosidade é que, ao se tornarem visíveis, eles podem se reproduzir com humanos. Por exemplo: uma criatura chamada nasnas, presente em histórias árabes, é descrita como filha de um shiqq, um tipo de jinni inferior, com um humano. Nasnas têm metade do rosto e do corpo, e apenas um braço e uma perna.


O livro ainda menciona ifrits, criaturas maléficas que ora são descritas como um tipo de jinn, ora como demônios. E também ghouls: monstros que vivem em cemitérios e se alimentam de carne humana. Posteriormente, esses personagens foram incorporados em videogames, livros e séries de fantasia, como em Deuses americanos, de Neil Gaiman, e Tokyo ghoul, de Sui Ishida.


Os gênios são velhos conhecidos da cultura pop. Fizeram sucesso de forma estereotipada nos anos 1960 com as séries Jeannie é um gênio e Shazzan, e nos anos 1990 com Aladdin da Disney. Mais recentemente eles ganharam uma roupagem menos caricata, como em Jinn, primeira série original em árabe da Netflix, e Duna: parte 2, em que os jinn são mencionados como espíritos do deserto.


Mais do que inspirar personagens no Ocidente, As mil e uma noites contribuiu para a visão mística que se construiu daquela região. “Na França, a tradução do Galland foi lida como uma representação das coisas reais do Oriente”, diz Jarouche. “Elas inauguram um modo de ver o Oriente filtrado pela ficção.”


Histórias em transformação


O último volume d’As mil e uma noites de Galland foi publicado em 1717. Sem essa tradução, não existiriam As viagens de Gulliver ou Robinson Crusoé – pelo menos não como são hoje. Esses clássicos da literatura inglesa são narrativas de viagem em que os protagonistas conhecem mundos distantes, assim como nos contos de Simbad. Esse trio de histórias traz reflexões sobre moral, valores e a organização da sociedade a partir do contato com ilhas estranhas e remotas.


Simbad, por sua vez, é descendente de um livro chamado Relatos da China e da Índia, que reúne descrições factuais (ou, por vezes, fantásticas) de marinheiros muçulmanos que tiveram contato com essas duas regiões nos séculos 9 e 10. Diferentemente do Hazār afsāna (que conhecemos da mesma época), o Relatos sobreviveu ao tempo, e hoje é uma peça de pesquisa para historiadores e estudiosos de literatura.


Finalmente, sobre Sherazade: durante o período com o rei, ela deu à luz três filhos. Ao final das supostas mil e uma noites, a rainha diz que não tem mais histórias para contar, e pede para se despedir das crianças antes de ser executada. Xariar, no entanto, já estava apaixonado, e decide mantê-la como esposa. Esse final está nos manuscritos mais recentes d’As mil e uma noites.


Os tempos mudam, as histórias mudam junto. Você não precisa ter lido As mil e uma noites para conhecer alguns contos que estão ali – eles se transmutaram em outras histórias, mais próximas da nossa cultura do que imaginamos. E continuarão a atravessar fronteiras e épocas enquanto a humanidade tiver vontade de contar boas histórias.


Fontes: (1) artigo “O sobrenatural e o mágico nas mil e uma noites”; (2) artigo “Tales from the crypt: on some uncharted voyages of Sindbad the sailor introduction”; (3) artigo “The politics of translation: two stories from the turkish Ferec ba‘de Şidde in Les mille et une nuit, contes arabes”; Alcorão; “Livro das mil e uma noites”, traduzido do árabe por Mamede Mustafa Jarouche.

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terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Tantra e Witchcraft: ensaios sobre cultura indiana em livros de ocultismo...

O trecho a seguir de Gerald Yorke, um dos discípulos de Aleister Crowley, provavelmente se encontra em Tantric Hedonism, única publicação de Yorke a constar nas referências. Está transcrito numa das obras mais conhecidas do ocultista Gerald Gardner (1883-1964) sobre Bruxaria. Trata acerca dos princípios masculinos e femininos do Tantra:

"Gerald Yorke disse em um ensaio sobre a religião dos tântricos da Índia: "Busca-se o espiritual por meio dos sentidos ao mesmo tempo negando-lhes a validade. É uma religião de luz, vida e amor na qual a morte livra-se da dor pelo rosário de crânios ao redor do pescoço da deusa nua Kali; e na qual o sexo é considerado sagrado, e é livremente retratado nas esculturas do templo. Música, dança e arte-dramática não perderam a influência como no Ocidente... No Macrocosmo, que é o Universo para os hindus, o Sol significa o aspecto criativo do Deus... a Lua é o princípio receptivo.
No Microcosmo, ou seja, homem e mulher, estes dois planetas são substituídos pelo lingam e yoni que são adorados em templos dedicados a eles." As palavras "lingam" e "yoni" significam os órgãos genitais masculino e feminino respectivamente.

GARDNER, Gerald Brosseau, (1883-1964). O significado da bruxaria. São Paulo: Madras, 2004, página 50.

Vale lembrar que Shiva, o "destruidor", é o deus que possui representação fálica e é o consorte da Grande Deusa Mãe, Shakti.

Na imagem as representações de lingam e yoni em um templo na Índia.
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quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Índia - O País e o Povo

   "O subcontinente indiano compreende os atuais territórios políticos da Índia, do Paquistão, do Ceilão e do Nepal. É limitado ao norte, nordeste e noroeste pelo Himalaia, o Hinduskush e outras grandes cadeias montanhosas. Aquém da barreira de montanhas, o subcontinente se divide em duas grandes regiões: o platô do Dekkan, que é formado com as mais antigas rochas conhecidas na superfície do mundo, e as planícies aluviônicas do Indo e do Ganges. Grande parte da Índia está situada sob os trópicos, mas, em virtude da barreira montanhosa que protege as planícies baixas do Norte, a temperatura, no verão, é elevada em toda parte, no conjunto. As precipitações pluviais e a umidade variam sobremodo de região para região. Na península indiana, o clima geralmente é igual e os contrastes entre inverno e verão, noite e dia são menos acentuados.
   As principais línguas da Índia podem ser repartidas em dois grupos: o do Norte, falado pelos povos de raça ariana (ramo indo-ariano da família indo-européia) e o do Sul, que constitui o grupo linguístico dravídico, que não se liga, entretanto, a nenhum outro grupo. A língua indo-ariana mais antiga que deixou vestígios é a do Rigveda (por volta de 1500 - 1000 a.C.). Dessa língua deriva o sânscrito clássico, assim como os dialetos do médio indiano, do qual surgiram as línguas indianas modernas. As primeiras obras literárias em língua dravídica (tamul) datam aproximadamente, do começo da nossa era. É curioso observar que na Índia existem mais de 200 línguas.
   A posição geográfica da Índia, península vulnerável, explica as sucessivas invasões que marcaram a sua história. Mas os diferentes grupos colonizadores que, vindos do noroeste, se estabeleceram no território, foram absorvidos pela população indiana.
   Pátria de uma grande civilização, talvez das maiores do mundo, extraordináriamente rica por um passado espiritual multi-milenar, a Índia deve ao seu pensamento religioso e metafísico a fama universal que goza. Os hinos do Rigveda, que constituem a mais antiga expressão desse pensamento, deram origem a volumosa literatura de exegese que descreve minuciosamente os ritos e os sacrifícios bramânicos. Posteriores aos Vedas, os Upanixades, contém ensinamentos místicos e esotéricos. Os séculos VII e VI a.C. viram nascer pensadores e mestres eminentes, e, entre eles, os fundadores do budismo e do jainismo. O budismo espalhou-se rapidamente através da Índia, penetrando também na China, no sudeste asiático e no Tibete. O desenvolvimento das seitas hinduístas no curso dos primeiros séculos da nossa era (notadamente o xivaísmo ou culto de Xiva e vixenuísmo ou culto de Vixenu) indica, provavelmente, uma reação dos brâmanes diante do sucesso do budismo.
   A par dos cultos autóctones e dravídicos que ainda hoje estão representados em alguns distritos, a Índia antiga tinha a religião nacional, chamada vedismo, nome tirado dos Vedas, livros sagrados: era uma crença naturista que tinha como divindades: Dios, Aditi, Agni, Soma, Indra, Varuna etc. Ao vedismo sucedeu o bramanismo, evolução filosófica e ritualista da precedente, que instituiu o regime das castas e deu à religião forma nitidamente panteísta. Finalmente, nova evolução deu como consequência o politeísmo panteísta chamado hinduísmo, que constitui, hodiernamente, a religião da grande massa dos 500 milhões de habitantes que povoam a Índia. Conta, ainda, com religiões estrangeiras, como o jainismo, que não possui mais de um milhão de adeptos; o budismo, doutrina filosófica que depois de ter dominado na Índia do século II a.C. ao V d.C., não tem mais fiéis a não ser os habitantes do Ceilão; o parsismo, chamado também zoroastrismo ou masdeísmo, levando para lá pelos persas e cujo centro é Bombaim; o islamismo, que conta cerca de 60 milhões de adeptos e o cristianismo, praticado pelos europeus que lá residem e por uma insignificante minoria de naturais, das classes mais baixas, como os párias."

(SPALDING, Tassilo Orpheu. Dicionário das mitologias européias e orientais. São Paulo: Cultrix, 1973. Pág. 167-168)
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segunda-feira, 5 de julho de 2010

Maharishi Mahesh Yogi e a Meditação Transcendental

"Se somente dez por cento ou até mesmo um por cento da população do mundo praticasse a Meditação Transcendental, seria o suficiente para neutralizar o poder da guerra por milhares de anos."
Maharishi Mahesh Yogi

Eis que em meio aos livros algumas vezes deparo-me com alguns insólitos achados, entre eles estão dois livros sobre Meditações de Maharishi Mahesh Yogi. Mais conhecido no ocidente como o "guru dos The Beatles", este mestre indiano foi um dos principais divulgadores da Meditação Transcendental no Ocidente até seu falecimento na Holanda em 2008. 


MAHARISHI MAHESH YOGI. Meditações de Maharishi Mahesh Yogui. Rio de Janeiro: Editora Artenova, 1975.

(Título original: Meditations of Maharishi Mahesh Yogi © 1968 by Batam Books, INC.)

MAHARISHI MAHESH YOGI. Meditação Transcendental. Rio de Janeiro: Editora Artenova, 1976.

(Título original: The science of Being and arte of living © 1963 by Allied Publishers Private Limited.)
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sexta-feira, 25 de junho de 2010

Mantenha seus projetos em segredo...

Em meio aos exercícios de meditação, eis que me deparo com a curiosa instrução do autor do livro dirigida aos leitores, a qual reproduzo abaixo: 

   "O estudante não deve falar sobre os exercícios que esteja praticando. Esse cuidado deve ser observado com referência a todas as técnicas apresentadas neste livro. Não comentar os próprios projetos com ninguém, exceto com aqueles que estiverem seguindo a mesma linha de trabalho. O silêncio absoluto é sempre mais aconselhável.
   Ao fazer comentários desperdiçamos força de vontade, o que impede o sucesso nos exercícios. Além disso, os pensamentos de curiosidade daqueles que saibam de nossos esforços nos perseguirão, aumentando a carga de pensamentos indesejáveis que tentamos destruir. Saber disso e guardar silêncio é suficiente para evitar desapontamentos."



(SADHU, Mouni. Concentração. São Paulo: Círculo do Livro, s/d., pág. 19)

Título original: Concentration
Copyright © 1959 Mouni Sadhu
Tradução: Leonides Doblins
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segunda-feira, 21 de junho de 2010

"A Canção de Mahamudra" por Osho

A Canção continua:


Se alguém nada vê quando contempla o espaço,
se com a mente alguém observa a mente,
esse alguém destrói distinções
e alcança o estado de Buda.


As nuvens que vagueiam pelo céu
não tem raízes, nem lar
também assim são os pensamentos distintivos
vagando através da mente.
Desde que a mente-eu é vista,
cessa a discriminação.


Formas e cores formam-se no espaço,
mas o espaço não é tingido nem pelo branco, nem pelo preto.
Da mente-eu todas as coisas emergem,
e a mente não é manchada nem por virtude, nem por vícios.


In: OSHO. Tantra: A Suprema Compreensão. São Paulo: Cultrix, 1992.

Palestras de Osho sobre A Canção de Mahamudra de Tilopa, compiladas pelo Swami Amrit Pathik e organizado em forma de livro por Ma Yoga Anurag.

Título Original: Tantra: The Supreme Understanding.
 © Osho International Fundation, 1975.



Sobre Osho:

"Osho nasceu em Kuchwada, Madhya Pradesh, na Índia, em 11 de dezembro de 1931. Desde a primeira infância, foi um espírito rebelde e independente, que insistia em descobrir a verdade por si mesmo em vez de obter conhecimentos e crenças dados por outros.
Depois de sua iluminação, quando tinha 21 anos, Osho completou seus estudos acadêmicos e passou vários anos lecionando filosofia na Universidade de Jabalpur. Neste interím, viajou pela Índia dando palestras, desafiando líderes das religiões ortodoxas em debate público, questionando as crenças tradicionais e entrando em contato com pessoas de todos os meios sociais. Lia muito, lia tudo o que ampliasse sua compreensão dos sistemas de crença e da psicologia do homem moderno.
No final dos anos 60, Osho havia começado a desenvolver suas Técnicas de Meditação Dinâmica, únicas no mundo. O homem moderno, diz ele, está tão sobrecarregado de tradições desatualizadas do passado e de ansiedades na vida moderna, que precisa passar por um processo de limpeza profunda antes de poder esperar descobrir o estado relaxado, vazio de pensamentos, da meditação.
[...]
Ele não pertence a nenhuma tradição - "Estou dando início a uma consciência religiosa totalmente nova", diz ele. "Por favor, não me liguem ao passado, pois não vale a pena lembrar-se dele."
[...]
Osho morreu no dia 19 de janeiro de 1990.[...]" (OSHO, 1992, pág.245-246)

Mais informações em www.osho.org

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sexta-feira, 18 de junho de 2010

Shiva-Sutra: Realidade e Realização Supremas

“As pessoas que se acham completamente absorvidas pelas atrações e ambições da vida mundana não podem perceber esses fatos óbvios e passam por eles sem ao menos notarem a sua existência. Estas pessoas, às vezes, zombam dos que lhes apontam tais fatos e a necessidade de a eles se sobreporem, libertando-se das limitações e enganos que os caracterizam e dos conseqüentes sofrimentos que padecem desnecessariamente. Elas pensam que são realistas e chamam de visionários, que desperdiçam o tempo na futilidade do pensamento filosófico, vivendo num mundo de faz de conta, os que, pelo menos parcialmente, estão conscientes das ilusões e delas tentam libertar-se.” (TAIMNI, 1982, pág. 89-90)


TAIMNI, I.K. Shiva-Sutra. Realidade e Realização Supremas. Rio de Janeiro: Grupo Annie Besant, 1982.

Título original: The Ultimate Reality and Realization
The Theosophical Publishing House, Adyar, India, 1976.
Tradução de Maria Luiza Lavrador.

O livro apresenta uma série de aforismos sânscritos e comentários acerca destes, acompanhados pelas definições das palavras sânscritas específicas para os estudiosos das Ciências Ocultas.

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terça-feira, 15 de junho de 2010

Termos Sânscritos em "O Caminho do Discipulado" de Annie Besant

BESANT, Annie. O caminho do discipulado. São Paulo: Editora Pensamento, s/d.


Título Original: The path of Discipleship

Edição orignal de The Theosophical Publishing House, Adyar, Madras, Índia.


Este livro é a publicação de uma série de conferências públicas proferidas por Annie Besant na Índia. Utiliza diversos termos sânscritos que nem sempre econtram um correspondente para serem traduzidos para o português, por isso o livro traz um breve glossário que irei reproduzir logo abaixo.


Glossário de Termos Sânscritos usados no Texto

Akasha. O principal dos cinco ou sete Tattvas; o éter, causa psíquica e espiritual do som. Nos arquivos akásicos ficam permanentemente gravados todos os sons, acontecimentos e palavras que proferimos.

Arhat. "Digno"; é aquele que atingiu a quarta iniciação e se tornou um adepto. Pode ver o Nirvana durante a vida.

Avatar. Uma encarnação Divina.

Chela. "Criança". Discípulo de um guru ou sábio; prosélito de algum adepto de escola de filosofia. No Oriente também se chama chela ao discípulo aceito para o estudo de Ocultismo.

Dharma. Lei, dever, religião; é o dever e o seu cumprimento.

Gunas. São as três qualidades da matéria, os três modos de manifestação cósmica: Rajas, a energia, a atividade, a força centrífuga; Tamas, a inércia, a resistência, a obscuridade, a força centrípeta; Sattva, o ritmo ou equilíbrio que há de resultar de ambas as anteriores, isto é, a verdade, a pureza, a luz.

Hamsa. "Cisne", o pássaro branco, símbolo da sabedoria e da iniciação. Segundo a tradição, tinha o poder de separar a água e o leite misturados, e daí representar a virtude ou faculdade do Discernimento espiritual. No Hinduísmo chama-se Hamsa àquele que atingiu a terceira grande iniciação.

Jivanmukta. "O liberto ou emancipado em vida". Um adepto ou iogue que chegou ao último estado de santidade e se libertou da escravidão da matéria.

Karana Sharira. O corpo causal que, por ser permanente, passa de uma encarnação para a outra.

Linga Sharira. É o duplo etérico, que faz parte integrante do corpo físico.

Paramahama. Aquele que está além de Hamsa.

Sannyasi. O asceta que renunciou a todos os atrativos da vida terrestre.

Siddhis. "Atributos de perfeição", poderes ocultos que, graças à sua santidade, adquirem os iogues.

Titiksha. Longa e inalterável paciência; resignação, renúncia.

Tattva. "Aquilo" eternamente existente, e também os diferentes princípios da Natureza, em seu significado oculto. Dá se também o nome de Tattva aos abstratos princípios de existência, ou categorias, físicas e metafísicas, que são correlativos aos sentidos externos e internos do homem.

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quinta-feira, 10 de junho de 2010

Literatura Indiana: um pouco de história...

LITERATURA INDIANA

Confinada entre o Himalaia e o Oceano Índico, a Índia desenvolveu-se culturalmente isolada. Seus primeiros temas de contos alcançam, no entanto, o Ocidente já em Heródoto e Ctésias, embora seja difícil reconhecer a realidade imersa que se apresenta num conjunto de fantasias. Outros temas e contos indianos são conhecidos e os Upanichades pelos neoplatônicos de Bizâncio, mas, apenas no século XIX ocorre a descoberta real da imensa e importante literatura sânscrita.

Para sua apreensão pelo Ocidente duas dificuldades apresentam-se: a deformação dos textos por tratamentos com total ausência de senso estético ou pelas incríveis fantasias de meios espiritualistas heterodoxos e até por missões de certos gurus... Pouco é o conhecimento direto que temos do domínio indiano e raros também os trabalhos históricos e sociológicos (embora seja de se destacar Max Weber) ou os empreendidos pelos racionalistas, como Keyserling, Romain Rolland, René Guénon e Spengler.

A literatura do longínquo passado é por excelência religiosa e sem delimitações entre as disciplinas. Esta literatura sagrada compreende o Rig-Veda, escrito em sânscrito arcaico e que data aproximadamente do século XX a.C., os Vedas, os Brâmanes e os Upanichades. Apenas no século XIX da atual era são os textos fixados em escrita. No entanto, os brâmanes ortodoxos julgam a escrita indigna para fixar a santidade dos textos e, ainda hoje, é a transmissão oral que predomina na maioria dos centros de ensino superior indianos.

A unificação relativa do pensamento védico é produto da confluência de dois tipos diversos de pensamento religioso: o budismo e o jainismo, respectivamente derivador dos ensinamentos de dois poetas do século VI a.C., Buda e Mahavira. Nesta mesma época de imensas transformações culturais temas védicos servem para a elaboração das duas grandes epopéias indianas: o Maabarata e o Ramaiana. Exprimem mitos e valôres retirados da vida dos povos e elevados à dignidade sacra. O Maabarata apresenta um tema central de narração épica a respeito das lutas ocorridas entre duas famílias nobres e um notável enriquecimento com a apresentação de subtemas que, às vezes, quase atingem autonomia e hinos de caráter metafísico-moral. O Ramaiana, compilado por Valmique, narra as aventuras de um herói, Rama, que alcança o nível de divindade implacável quanto aos homens lançados em constantes hostilidades. Reelaborações menos grandiosas mas ainda importantes são os Puranas e os Tantras.

Embora uma literatura exclusivamente laica não tenha existido na Índia, podemos observar uma realidade lírica na qual o religioso não assume primeiros planos. Calidasa (século IV) escreveu numerosas peças de teatro, o Ritusamara - descrição das seis antigas estações do ano - e o Raguvança, no qual figura um resumo do Ramaiana.

Importante ciclo de contos e fábulas com versões hinduístas, budistas e jainistas numerosas é redigido em sânscrito sob o título de Pancatantra e fornece imensa fonte de inspiração temática às literaturas ocidentais, sendo autores que a ela recorreram, entre outros, Renart, La Fontaine, Anderson, Grimm e Goethe.

Outra importante tradição indu é constituída pelos ciclos de contos cujo procedimento de construção é a inclusão encadeada de episódios, tal como ocorre em "As Mil e Uma Noites". São exemplos o Brihat-Cathá e o Daçakumâracarita, atribuído a Dandin. Êste último romance clássico apresenta dez diferentes agrupamentos de aventuras e, embora com predominância do sentido moral, acumula o picaresco, o erótico e o burlesco.

Observamos agora que esta literatura, apresentada apenas em suas linhas mais gerais, não ultrapassa o domínio sânscrito, védico e clássico: é a imensa a variedade de línguas faladas na Índia e muitas apresentam rico patrimônio literário. Os dravídicos autóctones destacam-se pela literatura de quatro línguas diferentes dentre as catorze existentes. Apresentam também literatura algumas das atuais vinte e sete faladas em solo indiano, tais como o bengali, o marata, o penjabi e o assamês. A própria língua inglêsa, que assumiu a posição de língua de relações gerais, apresenta autores da importância de um Tagore ou de Kamala Markandaya. As literaturas dravídicas apresentam vários séculos de expressão literária de inestimável importância e valor, mas, inacessíveis pela deficiência de traduções.

A mais importante língua moderna da Índia é o hindi, falado com numerosas variantes dialetais por 125 milhões de indus. Sua literatura, com tradição de treze séculos, apresenta como autores importantes Kabir (1440-1518), hinduísta extremamente influenciado pelo islamismo, e Nanak (1469-1538).

Falado por 55 milhões de hindus, o bengali apresenta riqueza literária superior a qualquer outro grupo linguístico indiano. O texto bengali de primeira importância é Cariapadas, que data do século X e reúne cantos místicos. O século XIX presencia a elevação do bengali ao nível literário nacional e como expressão do amálgama de influências tradicionais e ocidentais em grandes apresentações sincretistas. Rammohan Rây (1772-1833) exerceu imensa influência nesta fundação de literatura nacional e, logo, inúmeras eram as traduções de autores estrangeiros. Michael Madhusudan Datta (1824-1873) adaptou o Ramaiana a uma visão cristã ao escrever Meganada-Vada. Rabindranath Tagore (Rabindranâth Thâkur - 1861-1941), autor de "A Religião do Homem", "A Carta ao Rei", "Gora", e "A Máquina", alcançou repercussão mundial e foi detentor de um prêmio Nobel.

RAMOS-DE-OLIVEIRA, Newton; KOPKE, Carlos Burlamaqui; BONINI, Marylene. História da literatura mundialSão Paulo: Fulgor, 1968. vol. 7. Pág. 19-21.


*Da bibliografia de orientação:

Renou L. - Les littératures de l'Inde - Paris, Presses Universitaires de France, 1951.
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domingo, 30 de maio de 2010

Aldous Huxley: Prefácio para Krishnamurti


"O homem é um anfíbio que vive simultaneamente em dois mundos - o mundo da realidade e o mundo por ele próprio fabricado - o mundo da matéria, da vida e da consciência, e o mundo dos símbolos. Quando pensamos, fazemos uso de grande variedade de sistemas de símbolos: lingüísticos, matemáticos, pictóricos, musicais, ritualísticos. Sem esses sistemas de símbolos, não teríamos arte, nem ciência, nem lei, nem filosofia, nem sequer os rudimentos da civilização; em outras palavras, seríamos animais."
Prefácio de Aldous Huxley


In: KRISHNAMURTI, Jiddu. A primeira e última liberdade. São Paulo: Cultrix, 1972.

Krishnamurti nasceu em Madanapalle, sul da Índia, em 1895. Seu pai trabalhava na Sociedade Teosófica em Adyar. 
Foi um filósofo e místico, escreveu sobre meditação, conhecimento, relações humanas, sobre a mente humana e revolução psicológica. Não tinha relações com nenhuma organização filosófica-religiosa, suas palestras e livros não são ligados a nenhuma religião específica, mas a humanidade como um todo.


 Para ler mais sobre Krishnamurti, visite Instituição Cultural Krishnamurti
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segunda-feira, 24 de maio de 2010

A sabedoria dos Vedas


CHATTERJI, Jogadish Chandra. A sabedoria dos Vedas. São Paulo: Editora Pensamento, s/d.


Título original: The Wisdom of the Vedas

1973, The Theosophical Publishing House


"Pode-se dizer, seguramente, que em nenhum outro lugar o leitor e o estudioso encontrarão disponível uma explicação tão abrangente e tão clara feita por uma autoridade tão competente."

Estas palavras, tiradas da Introdução de John Dewey a este volume, resumem toda a importância desta obra do Pândita Chatterji, indispensável para todos quantos se interessam por conhecer os fundamentos e o método do sistema oriental de pensamento consubstanciado nos Vedas.

O nomeVeda (no plural, Vedas) significa literalmente Sabedoria ou Ciência, e é usado para designar toda a literatura, constituída de dezenas de livros  e de milhares de poemas, hinos, lendas, mitos e narrativas, que constituem as Escrituras Sagradas de várias religiões da Índia, principalmente do Vedismo, do Bramanismo e do Hinduísmo.

Embora todo esse universo literário constitua a resposta da sabedoria mais antiga da Índia às questões básicas que movem o pensamento humano - a vida, sua origem, seu propósito e seu objetivo - tratando-se de sistemas filosóficos e de pensamento tão distantes, faz-se necessária a visão de um guia seguro que torne acessíveis ao estudioso e ao leitor os pontos básicos da cultura indiana.

Este o sentido desta obra - uma introdução ao pensamento espiritual do Oriente - para o qual, cada vez mais se volta o Ocidente, desejoso de lançar novas luzes sobre muitos problemas, não resolvidos, dos nossos tempos modernos."
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sexta-feira, 21 de maio de 2010

Os sábios


"Os canais de irrigação guiam a água; os flecheiros endireitam as flechas; os carpinteiros vergam a madeira; os sábios modelam a si próprios."

A Dhammapada
EASTCOTT, Michal J.O caminho silencioso: Uma introdução à Meditação. São Paulo: Editora Pensamento, s/d.

Tìtulo original: The Silent Path: An Introduction to Meditation 1969.

Ilustração  Ionit Zilberman
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quarta-feira, 14 de abril de 2010

Arqueologia Literária: A Sabedoria dos Upanixades de Annie Besant

Começando a série Arqueologia Literária aqui no blog... 

O objetivo é trazer para a discussão poemas, livros ou contos que estou descobrindo pela biblioteca...


BESANT, Annie. A sabedoria dos Upanixades. São Paulo: Editora Pensamento, s.d.
Título original: The wisdom of the Upanishads Edição: The Theosophical Publishing House Adyar, Madras, Índia.

Quatro conferências proferidas por ocasião do 31º Aniversário da Sociedade Teosófica em Adyar em dezembro de 1906. Tradução de Carlos Alberto da Fonseca.

As conferências foram denominadas "Brahman é Tudo", "Is'vara", "Os Jîvâtman" e "A Roda dos Nascimentos e das Mortes".

"(...)Uma palavra eu deixei deliberadamente sem tradução - tapas. Não há nenhuma palavra inglesa [nem portuguesa (N.T.)] que expresse o seu significado; as várias traduções que até agora foram feitas - austeridade, penitência, ascetismo, devoção - estão todas elas nela contida, mas ela é muito mais do que todas juntas. Provém da raiz TAP, "arder". Há nela calor, uma força abrasadora, que tudo consome. O fogo do pensamento está nela, o fogo que cria. O fogo do desejo está nela, o fogo que devora. Pode ser definida como "uma atividade física esforçada continuada, rigorosamente controlada e dirigida pela vontade em direção a um pensamento concentrado." Por meio de tapas Brahman criou mundos; por meio de tapas  Vis.n.u alcançou sua categoria sublime; por meio de tapas Mahâdeva tornou-se o Jagat-Guru. Por meio de tapas todo R.s.i obteve seus poderes sobrenaturais e obrigou que até mesmo os Devas mais relutantes concedessem suas dádivas. Resolvi, então, manter a palavra em sua forma original, de maneira a possibilitar sua inclusão no vocabulário teosófico, do qual já fazem parte karman e dharma. 
Que este pequeno livro prossiga em sua missão e conquiste alguns adeptos para o estudo de sua fonte.* 
ANIE BESANT

*[Na grafia das palavras sânscritas, harmonizou-se a transcrição dos termos originais segundo critérios estabelecidos pelo Comitê de Transliteração do Congresso Orientalista de Genebra, realizado em setembro de 1894, que são seguidos até hoje pelos indólogos e pelas editoras que menos confusão querem gerar nesse setor. (N.T.)]"

(Do Preâmbulo, páginas 7 e 8.)
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