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terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

O que sempre esteve lá...

"Milan Kundera comenta (em L'Art du roman, 1986): "Escrever significa para o poeta romper a muralha atrás da qual se esconde alguma coisa que 'sempre esteve lá'." Sob esse aspecto, a tarefa do poeta não é diferente da obra da história, que também descobre, e não inventa: a história, como os poetas, descobre, em sempre novas situações, possibilidades humanas antes ocultas."

In BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. p. 231.

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sábado, 2 de junho de 2012

Marinha - Cecília Meireles - Poemas escritos na Índia

MARINHA

O BARCO é negro sobre o azul.

Sobre o azul, os peixes são negros.

Desenham malhas negras as redes, sobre o azul.

Sobre o azul, os peixes são negros.

Negras são as vozes dos pescadores,
atirando-se palavras no azul.

É o último azul do mar e do céu.

A noite já vem, dos lados de Burma,
toda negra,
molhada de azul.

- a noite que chega também do mar.



De Poemas Escritos na Índia.

(MEIRELES, Cecilia. Seleta em prosa e verso. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 1973. pág. 22-23)

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segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Anoitecer - Cecília Meireles - Poemas escritos na Índia

ANOITECER

AO longo do bazar brilham pequenas luzes.
A roda do último carro faz a sua última volta.

Os búfalos entram pela sombra da noite,
onde se dispersam.

As crianças fecham os olhos sedosos.
As cabanas são como pessoas muito antigas,
sentadas, pensando.

Uma pequena música toca no fim do mundo.

Uma pequena lua desenha-se no alto do céu.

Uma pequena brisa cálida
flutua sobre a árvore da aldeia
como o sonho de um pássaro.

Oh, eu queria ficar aqui,
pequenina.
De Poemas Escritos na Índia.
(MEIRELES, Cecilia. Seleta em prosa e verso. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 1973. pág. 21-22)
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domingo, 27 de novembro de 2011

Tarde Amarela e Azul - Cecília Meireles - Poemas escritos na Índia

TARDE AMARELA E AZUL

VIAJO entre poços cavados na terra seca.
Na amarela terra seca.
Poços e poços de um lado e de outro.

Sáris amarelos e azuis,
homens envoltos em velhos panos amarelados,
crianças morenas e dóceis;
tudo se mistura aos veneráveis bois
que sobem e descem em redor dos poços.

Dourados campos solitários,
longas e longas extensões cor de mostarda.
São flores?

Lua do crepúsculo abrindo no céu jardins aéreos,
nuvens de opalas delicadas.

Poços e poços. E mulheres carregando ramos ainda com folhas,
árvores caminhantes ao longo da tarde silenciosa.

Passeiam pavões, reluzentes e felizes.
Caminham os búfalos mansos, de chifres encaracolados.
Caminham os búfalos ao lado dos homens: uma só família.

E os ruivos camelos aparecem como colinas levantando-se,
e passam pela última claridade do crepúsculo.

Todas as coisas do mundo:
homens, flores, animais, água, céu...

Quem está cantando muito longe uma pequena cantiga?

De uma exígua moita,
sai de repente um bando de pássaros:
como um fogo de artifício todo de estrelas azuis.

(E o deserto está próximo.)

De Poemas escritos na Índia.
(MEIRELES, Cecilia. Seleta em prosa e verso. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 1973. pág. 20-21)
Imagem
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segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Manhã de Bangalore - Cecília Meireles

MANHÃ DE BANGALORE

AURICELESTE manhã com as estrelas diluídas
numa luz nova.
Um suspirar de galos através dos campos,
lá onde invisíveis cabanas acordam,
cinzentas e obscuras,
porém cheias de deuses sob tetos de palha.

Auriceleste manhã com a brisa da montanha,
a rósea brisa,
desenhando seus giros de libélula
no horizonte de gaze.

Deslizam bois brancos e enormes
de chifres dourados,
- oscilantes cítaras
com borlas vermelhas nas pontas.

As primeiras mulheres assomam à janela do dia,
já cheias de pulseiras e campainhas,
entreabrindo seus véus como cortinas da aurora.

E o caminho vai sendo pontuado
de estrelas douradas,
aqui, ali, além,
no bojo dos vasos de cobre,
os vasos de cobre polido que elas carregam
como coroas.

Ai, frescura de rios matinais,
de panos brancos que ondulam ao sol!

Alegrias de água, sussuros de árvores.
O perfil do primeiro pássaro.

E a bela moça morena, com uma rosa na mão
e os dentes cintilantes.

E a postagem de hoje faz parte do livro Poemas Escritos na Índia, escrito por Cecilia Meireles, nascida no Rio de Janeiro dia 7 de novembro de 1901.

(MEIRELES, Cecilia. Seleta em prosa e verso. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 1973. pág. 16-17)

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sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Mil fragmentos somos... "Biografia" de Cecília Meireles

BIOGRAFIA

Escreverás meu nome com todas as letras,
com todas as datas,
— e não serei eu.

Repetirás o que me ouviste,
o que leste de mim, e mostrarás meu retrato,
— e nada disso serei eu

Dirás coisas imaginárias,
invenções sutis, engenhosas teorias,
— e continuarei ausente,

Somos uma difícil unidade,
de muitos instantes mínimos,
— isso serei eu,

Mil fragmentos somos, em jogo misterioso,
aproximamo-nos e afastamo-nos, eternamente,
— Como me poderão encontrar?

Novos e antigos todos os dias,
transparentes e opacos, segundo o giro da luz,
nós mesmos nos procuramos.

E por entre as circunstâncias fluímos,
leves e livres corno a cascata pelas pedras.
— Que mortal nos poderia prender?
©Cecília Meireles
In Poemas II, 1994

*Na foto meu fragmento por Geison Aquino.
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terça-feira, 17 de agosto de 2010

"colhe-a enquanto é tempo..."

6


Colhe e leva essa pequena flor, não demores! Receio muito que ela se incline e desfaleça na poeira.
Talvez ela não encontre lugar na tua grinalda; honra-a, porém, com um toque dolorido da tua mão e colhe-a. Receio muito que o dia termine antes que eu o perceba, e que passe a hora da oferenda.
Embora, não seja intensa a tua cor e seja débil o teu perfume, serve-te assim mesmo desta flor e colhe-a enquanto é tempo.


(TAGORE, Rabindranath. Gitanjali. São Paulo: Martin Claret, 2006.)
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domingo, 8 de agosto de 2010

Cecília Meireles - Poemas Escritos na Índia "Multidão"

MULTIDÃO

Mais que as ondas do largo oceano
e que as nuvens nos altos ventos,
corre a multidão.

Mais que o fogo em floresta seca,
luminosos, flutuantes, desfrisados vestidos
resvalam sucessivos,
entre as pregas, os laços, as pontas soltas
dos embaralhados turbantes.

Aonde vão esses passos pressurosos, Bhai?
A que encontro? a que chamado?
em que lugar? por que motivo?

Bhai, nós, que parecemos parados,
por acaso estaremos também,
sem o sentirmos,
correndo, correndo assim, Bhai, para tão longe,
sem querermos, sem sabermos para onde,
como água, nuvem, fogo?

Bhai, quem nos espera, quem nos receberá,
quem tem pena de nós,
cegos, absurdos, erráticos,
e desabarmos pelas muralhas do tempo?
(Cecília Meireles)

MEIRELES, Cecília. Poesias Completas - Volume III. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1973.
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quinta-feira, 3 de junho de 2010

Lei do passante - Cecília Meireles - Poemas escritos na Índia



 *This picture is copyrighted!



LEI DO PASSANTE


Passante quase enamorado,
nem livre nem prisioneiro,
constantemente arrebatado,
- fiel? saudoso? amante? alheio? -
a escutar o chamado,
o apelo do mundo inteiro,
nos contrastes de cada lado...


Chega?


Passante quase enamorado,
já divinamente afeito
a amar sem ter medo de ser amado,
porque o tempo é traiçoeiro
e tudo lhe é tirado
repentinamente do leito,
malgrado seu querer, malgrado...


Passa?


Passante quase enamorado,
pelos campos do inverdadeiro,
onde o futuro é já passado...
- Lúcido, calmo, satisfeito,
- fiel? saudoso? amante? alheio? -
só de horizontes convidado...


Volta?
(Cecília Meireles)

MEIRELES, Cecília. Poesias Completas - Volume III. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1973.
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sábado, 1 de maio de 2010

"estas nuvens preguiçosas navegando pelo céu" by Rabindranath Tagore



59



Sim, bem sei, ó amado do meu coração, tudo isso não é senão o teu amor - esta luz dourada que dança sobre as folhas, estas nuvens preguiçosas navegando pelo céu, esta brisa fugitiva deixando uma frescura em minha fronte.
A luz da manhã inundou os meus olhos - essa é a tua mensagem ao meu coração. A tua face debruça-se do alto, os teus olhos olham os meus olhos aqui em baixo, e o meu coração resvala pelos teus pés.

(TAGORE, Rabindranath. Gitanjali. São Paulo: Martin Claret, 2006. pág. 63)
 Photo Potira
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terça-feira, 27 de abril de 2010

Som da Índia - Cecília Meireles - Poemas escritos na Índia

SOM DA ÍNDIA


Talvez seja o encantador de serpentes!


Mas nossos olhos não chegam a esses lugares 
de onde vem sua música.


(São uns lugares de luar, de rio, de pedra noturna,
onde o sonho do mundo apaziguado repousa.)


Mas talvez seja ele.


As serpentes, em redor, suspenderão sua vida,
arrebatadas.


(Oh! elevai-nos do chão por onde rastejamos!)


E muito longe o nosso pensamento em serpentes se eleva
na aérea música azul que a flauta ondula.


Por um momento, o universo, a vida
podem ser apenas este pequeno som
enigmático


entre a noite imóvel
e o nosso ouvido.


(Cecília Meireles)

MEIRELES, Cecília. Poesias Completas - Volume III. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1973

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sexta-feira, 23 de abril de 2010

Cecília Meireles e sua viagem à Índia

 
Em 1953, a escritora brasileira Cecília Meireles viajou para a Índia e recebeu o título de Doutor Honoris Causa  da Universidade de Delhi
 

Pioneira na divulgação da literatura indiana no Brasil, ela esteve apenas uma vez na Índia, aos 52 anos de idade. Cecília escreveu diversas crônicas e poemas, retratando suas impressões sobre a viagem durante os dois meses  de sua estada. Ela considerava estes como os seus mais valiosos registros. Em 1961, 59  poemas foram publicados com o título de "Poemas escritos na Índia".


 
Crônicas de Viagem: A Índia – Cecília Meireles

Estes dias de canícula trazem-me à lembrança os meses passados na Índia, com o termômetro ainda mais alto que o nosso e nenhuma promessa de chuva antes da estação própria. Em alguns lugares, a paisagem tornara-se de um cinzento esbranquiçado - ossos, cal, cinza. O peso do sol era o peso do céu. Diziam-me: "Quando chover, fica tudo verde."

Mas o indiano tem o prazer do ar livre. Os belos jardins públicos estão sempre povoados de famílias que espairecem , passeiam, contemplam as árvores, admiram as flores, maravilham-se com os jorros d’água, os lagos, a sombra, as cores... Ao ar livre trabalha muita gente: barbeiros, costureiros, latoeiros... Ao ar livre fabrica-se e vende-se, brinca-se, estuda-se, medita-se.

As casas foram pensadas para um clima assim. Os aposentos muito altos são rasgados por amplas janelas, grandes portas, e por cima delas quase junto ao teto, ainda se vêem aberturas que facilitam a ventilação. Portas e janelas são para estarem abertas, no verão, protegidas às vezes por leves cortinas, ou por esteiras, que é costume molhar, para favorecer a frescura do ambiente. Há palhas perfumosas, que, molhadas, recedem. Fazem-se também quiosques de palha trançada, em alguns lugares nas casas modernas existem, naturalmente, grandes ventiladores suspensos no teto. O resto são varandas, cortinas que se levantam à menor brisa, e repuxos: o ar e água, que com o rumor de seus jogos consolam e refrescam.

Por outro lado, a vida indiana é simples e plácida. A comida, leve, quase sempre reduzida a legumes e arroz, um pouco de peixe ou ave. Muitas frutas: as mesmas frutas brasileiras que nos dão a impressão de não termos saído da terra: caju, manga, cocos, tamarindo, goiaba... E finalmente, leite, coalhadas, queijinhos moles, creme.

Como o sol, a certas horas, é insuportável, há trabalhos que começam muito cedo, no campo; e nas horas mais quentes do dia um grande sossego de sesta envolve a natureza e as criaturas , principalmente nos lugares pequenos, onde a vida é menos intensa.

A vestimenta típica dos indianos, homens e mulheres, além de sua grande beleza, é a mais inteligente que se possa usar também no verão. O sári é um longo pano (que pode ir do simples tecido de algodão à seda, e à gaze mais primorosamente ornamentada) com que a mulher indiana faz, rapidamente, uma elegante saia, sem costura nem qualquer espécie de prendedores, ajustando-o ao corpo, pregueando-o, fixando-o a cós da anágua, deixando uma ponta solta, como echarpe, que pode cobrir a cabeça ou envolver os ombros e busto, por cima da blusa.

O vestuário tradicional dos homens é aquele que Gandhi tornou conhecido no Ocidente: um sistema de panos brancos e flutuantes, formando calções amplos e o manto para as costas. Nem todos os homens se vestem assim, nem em todas as circunstâncias, mas os que sabem trazer esse tipo de indumentária imprimem à paisagem indiana uma nota inesquecível de autenticidade. Sandálias recortadas de variados modos completam esse guarda roupa. E só de olhar para as roupas de qualquer pessoa, para esses tecidos tão sensíveis que se franzem à menor brisa, pode-se ver se há calmaria ou se algum vento se esboça.

Como os indianos são normalmente abstêmios, mesmo em ocasiões de festa, as bebidas de suco de frutas, são verdadeiramente refrescantes. E as mais belas recepções são, sem dúvida, ao ar livre, nos jardins, entre as árvores, às vezes com tendas graciosas armadas, para facilitarem o serviço. Quando o jardim é o do palácio presidencial, todo recortado de canteiros entremeados d’água, com repuxos inúmeros, e todo bordado de flores como um tapete, e quando a festa é uma data nacional, não há salão que se possa igualar a esse ambiente de flores, águas irisadas, bebidas perfumosas e coloridas, e o fulgor das roupas orientais, de tons intensos e límpidos.

À noite, dorme-se nos terraços, nos jardins, nas varandas, na rua. Uns dormem pelo chão, em esteiras, outros nessas camas de vento (na verdade, de vento...) sem colchão, apenas com um trançado de cadarços em lugar do estrado. Os estrangeiros pensam que se dorme na rua só por pobreza, mas não é bem verdade. Há quem transporte sua cama para o lado de fora da casa a fim de aproveitar a fresca da noite para o repouso. E pergunto-me se haverá muitos lugares, hoje, no mundo, em que um mortal possa dormir tranqüilo ao ar livre, sem que outro mortal lhe venha tirar pelo menos o lençol e o travesseiro.

(Cecília Meireles. In: Obra em prosa - Crônicas de Viagem 2) 
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Cecília Meireles "Travelling and Meditating" Poemas escritos na Índia...




Meireles, Cecília. Travelling and Meditating: Poems Written in India and other poems. Tradução de Rita R. Sanyal e Dilip Loundo. Nova Delhi: Embaixada do Brasil, 2003, 289 pp.


Publicado na Índia em 2003 Travelling and Meditating, uma edição comemorativa do quinqüagésimo aniversário da única viagem de Cecília Meireles à terra que lhe despertara fascínio desde a infância. A iniciativa da publicação parte de Dilip Loundo, professor do departamento de Sociologia da Universidade de Goa, com o apoio da Embaixada do Brasil em Nova Delhi. Através do seu programa de disseminação da cultura brasileira na Índia, a Embaixada presta aqui um tributo especial à que foi pioneira na divulgação da literatura indiana no Brasil: além das várias palestras de Literaturas Comparada e Oriental que proferiu, Cecília, conhecedora de hindi e sânscrito, fez traduções para o português de poetas como Tagore.

Este volume bilíngüe compreende o seu Poemas Escritos na Índia, composto durante a viagem feita em 1953, e reúne os poemas inspirados em temas indianos dispersos nas outras obras suas. Depois do prefácio, escrito por Vera Barrouin Machado, embaixatriz brasileira em Nova Delhi, e dos agradecimentos aos colaboradores, antecedem os poemas dois textos que merecem ser mencionados: um excelente estudo introdutório intitulado «Cecília Meireles and India», por Loundo, e um breve ensaio crítico, «Cecília Meireles and the Poems Written in India», escrito originalmente em português por Antônio Carlos Secchin, professor da UFRJ, traduzido ao inglês pelo próprio Dilip Loundo.

Loundo discute em detalhe a afinidade pessoal de Cecília com a Índia, os seus estudos orientais e as conseqüências deste relacionamento na produção literária da autora; explica, ainda, as etapas da viagem, as impressões da poeta sobre cada localidade que visitou, com base nos seus escritos – numerosos poemas e crônicas – , que ela considerava os seus registros mais valiosos. O crítico destaca como principais influências no seu imaginário sobre a Índia contemporânea as figuras de Mahatma Gandhi e Rabindranath Tagore. Diz a poeta, na tradução de Loundo:

Tagore and Gandhi seem to sum up, between 1920 e 1940, all the traditional virtues of their people and represent them in the best possible way for the inception of a new life, dignified by freedom and wisdom (p. 26).

Secchin, por sua vez, situa os Poemas Escritos na Índia na série dos poemas de viagens de Cecília Meireles, considerando-os como retratos de contemplação das paisagens naturais e humanas da Índia:

Cecília reveals herself as a portraitist of landscape. […] In one instance, the picture records  the microscopy of rings, collars, teeth; in another, the ample scenes of the cycle of the day. […] The nature of India, in all its kingdoms, is sung by Cecília – it’s the vegetable kindom of «Sugar-cane Field» and «Pomegranates»; the mineral kindom of «Turquoise of Water», «Ganges» and «Storm»; and the animal kingdom of «Stables», «The Donkeys» and «The Elephant» (pp. 52-53).

Segue-se então a poesia de Cecília organizada em duas partes. A primeira delas constitui-se dos 59 poemas de Poemas Escritos da Índia, obra publicada originalmente em 1961, e a segunda é o resultado de uma garimpagem temática na obra completa da poeta, donde foram selecionados 12 poemas, entre eles a famosa «Elegia sobre a Morte de Gandhi», escrita no dia do acontecimento e imediatamente traduzida para várias línguas. Os poemas são em maioria peças curtas, o que facilita a disposição gráfica, de maneira que raras vezes um texto ultrapassa o espaço de uma página, garantindo a fluidez da leitura. As respectivas traduções vêm arranjadas na forma tradicional, à direita de cada original. Foram incluídas ilustrações para os poemas, 16 imagens ao todo, criações de Milan Khanolkar, artista gráfico de Goa.

Cecília Meireles contava 52 anos quando viajou à Índia. Já era escritora reconhecida; experimentava uma fase madura na composição poética. Travelling and Meditating mostra traços da tendência modernista combinados ao intimismo e reflexão metafísica próprios do seu estilo. Mais liberdade no verso, ritmo gracioso. Poemas sobre cegos, crianças, mulheres, servos, pó, incensos, humildade, pobreza e cores, muitas cores. A Índia parece ter inspirado em Cecília ternura e piedade, por ela expressos com muito afeto, como em «Lembrança de Patna» (p. 100):

As ruas, modestas.
O campo, submisso:
as batatas pareciam apenas
torrões mais duros.

As casas, simples,
as pessoas, tímidas.
Tudo era só bondade e
pobreza.

Versos cujos efeitos sonoros internos, aliás, resultam interessantes na tradução de Rita Sanyal, apesar do sacrifício do detalhe poético mais precioso do excerto («torrões mais duros»):

The roads, modest.
The field, submissive:
The potatoes merely looked
like harder lumps.
The houses, simple,
the people, timid,
Everything was but goodness
and poverty.

Os nomes dos tradutores aparecem ao final de cada poema traduzido, e oportunas notas explicativas completam a leitura com informações sobre lugares, personagens e eventuais vocábulos do idioma local utilizados nos originais de Cecília. Rita Sanyal, especialista em Literaturas Inglesa e Portuguesa e tradutora profissional em Nova Delhi, é a responsável pela tradução da maior parte dos poemas de Travelling and Meditating. Um grupo menor de poemas foi também traduzido por ela em colaboração com Dilip Loundo. O restante do livro foi traduzido por Loundo, incluídas todas as peças da segunda parte do livro, onde estão concentrados os poemas mais longos. As traduções, tanto as de Sanyal quanto as de Loundo, mostram esforço discreto em recuperar no inglês as nuanças do material sonoro da poesia de Cecília Meireles, isto é, os poemas traduzidos parecem mais próximos dos originais literalmente que literariamente. De modo que, quando comparados aos originais, boa parte dos efeitos de som e sentido, que as traduções oferecem, parecem ter sido meros acidentes da língua, ou o são com certeza, como nos versos finais de «Participação» (pp. 70-71), outro poema de Cecília à causa de Gandhi, traduzido por Dilip Loundo:

Pobreza, riqueza,
trabalho, morte, amor,
tudo é feito de lágrimas.

Poverty, wealth,
work, death, love,
everything is made of tears.

Há outras surpresas agradáveis ao leitor das duas versões de Cecília Meireles, original e  tradução. As traduções mais modestas de Travelling and Meditating, sob um olhar literário, em geral coincidem com os pontos fracos da obra original, como é o caso em «Mahatma Gandhi». Num ponto forte do livro, «74 (Quadra)», a tradução de Loundo, «74 (Stanza)» (pp. 214- 215), desfaz a velocidade e as rimas perfeitas do original e produz um efeito diverso de sentido bastante curioso, ao menos para o leitor brasileiro:

Buda, Jesus, Maomé,
tudo foi gente morena:
gente que viveu de fé,
gente que morreu de pena.

Buddha, Jesus, Muhammad,
they were all dark people:
people who lived on faith,
people who died of sorrow.

Na tradução de «Zimbório», a versão em inglês quebra a construção poética dos versos originais de Cecília (pp. 132-133):

Tudo vai sendo jamais.
Tudo é para sempre nunca.

Nothing goes on being forever.
Nothing is ever forever.

Esta é a única tradução em que se omite o nome do tradutor.

Nos apêndices o leitor encontra a cronologia dos livros de poemas de Cecília Meireles, as referências de todos os poemas reunídos no volume, das crônicas escritas durante os dois meses de sua estada na Índia e das traduções publicadas de poemas de Tagore feitas por Cecília. Ainda nos apêndices estão o itinerário da viagem, o discurso da poeta, completo, no seminário sobre Gandhi – aqui sintetizados, aliás, o seu próprio ideário sobre educação – , entrevistas, fotografias, notas de jornais (goenses) da época e uma tentativa de correlação entre as crônicas e poemas com os possíveis locais onde foram escritos. Tudo revisado por Carlos Alberto Gohn.

Travelling and Meditating representa uma boa amostra do estilo de Cecília Meireles ao público estrangeiro, e o rigor acadêmico  na edição faz com que o livro seja atraente também ao leitor brasileiro.

Juliana Steil
UFSC

Resenhas de Traduções - Publicação da Universidade Federal de Santa Catarina. Fonte do artigo em PDF  

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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

"Como uma flauta de cana, para que a enchas de música..." Tagore


7



A minha cantiga despe-se dos seus adornos. Não se orgulha de roupagens e ornatos. Quaisquer enfeites perturbariam a nossa união; eles se intrometeriam entre nós dois; o seu tilintar abafaria os teus murmúrios.



A minha vaidade de poeta morre de vergonha ao teu olhar. Sentei-me a teus pés, ó mestre poeta! Deixa-me apenas tornar a minha vida simples e reta como uma flauta de cana, para que a enchas de música.


(TAGORE, Rabindranath. Gitanjali. São Paulo: Martin Claret, 2006. pág. 32)



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sábado, 13 de fevereiro de 2010

Tagore: sobre as crianças...


 

8

A criança que se cobre com as roupagens de um príncipe e que enrola ao pescoço cordões de jóias, perde todo o prazer no seu folguedo; as suas vestes embaraçam-na a cada passo.


Com medo de que se gastem ou manchem de pó, ela se afasta do mundo, e até mesmo mover-se ela receia.


Mãe, não vale a pena essa tua prisão luxuosa, desde que ela exclui a gente da poeira saudável da terra, desde que ela priva a gente do direito de entrar na grande feira da vida comum dos homens.



(TAGORE, Rabindranath. Gitanjali. São Paulo: Martin Claret, 2006. pág. 33)

 Fotos by Meena Kadri
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terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Índia em Blogs

A dica de hoje são dois blogs mais do que fabulosos sobre meu tema favorito.  
Quem adivinhar ganha one rupee...




tudodeom.blogspot.com
by Fernanda R. Lima, Terapeuta Ayurvédica, São Paulo, Brasil.

 
by Vineeta Nair, Art Director, Mumbai, India.
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quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

O este é meu norte...

Postagem especialmente para as minhas queridíssimas colegas das aulas de Literatura. Espero que gostem...


Poética


De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.

Vinícius de Moraes

Poética me faz pensar sobre a História. Não esta História factual que liga tempo e espaço de maneira a datar acontecimentos “fatos históricos”, forçando uma linearidade inclusive quando este recurso é desnecessário. De um ponto de vista “racional” jamais se pode morrer ontem e nascer amanhã. Salvo os paradigmas religiosos sobre reencarnação, as pessoas nascem e morrem, nesta ordem.  Estes versos de Vinícius de Moraes são uma desconstrução da linearidade e fogem a nossa lógica. Um poema tem esta liberdade de não se limitar com Tempo e Espaço, duas variantes não cartesianas...

Gosto da ambigüidade e das metáforas neste poema. As duas últimas estrofes me fazem pensar sobre a possibilidade de desejar que o impossível aconteça e de mobilidade, do ato de mover se e das mudanças. Questionar-se sobre o tempo traz mesmo que implícito uma pitada de “quando” porque o “quando” sempre faz referência a um recorte temporal. Dessa maneira, os quatro primeiros versos podem ser metáforas sobre as fases da nossa vida. Com o acréscimo dos elementos tardo e ardo, possibilitam múltiplas interpretações e conexões com outras obras.


Sobre os outros que irão contar passo por passo, estes “outros” somos nós, os historiadores. Somos nós, os outros, que registramos estes passos e fazemos disto a matéria de nosso estudo. Passos estes que podem ser anônimos, que podem ser registrados das mais variadas formas. Passos cujos vestígios nós buscamos na arquitetura, na arte, na literatura, nos arquivos, nos museus, nas esquinas, nas ruas, na antropologia e na vida cotidiana.


Desde que eu li este poema pela primeira vez, me identifiquei imediatamente com o trecho O este é meu norte. O norte da bússola é o ponto de referência para que saiba onde você está e para onde precisa seguir para estar no seu caminho. A bússola aponta o norte mesmo que você esteja se deslocando em sentido oposto.


O Este neste trecho do poema significa Leste ou Oriente, uma coordenada geográfica que por si só já nos direciona para uma série de imagens... Como escreveu Edward Said na obra Orientalismo nós ocidentais temos uma visão sobre o Oriente que foi construída num processo de longa duração. Gosto de repensar a alteridade em relação ao olhar de estranhamento que temos sobre o Outro em oposição ao Eu. A arte e a literatura trouxeram muitas destas referências que povoam o imaginário sobre o “Oriente” e elas dizem mais sobre nós mesmos do que sobre o outro.


Mesmo antes de decidir minha profissão e antes de começar a minha trajetória para tornar-me historiadora eu já tinha interesse pela História, Literatura e Arte vindas do oriente. Na minha bússola o Oriente é o ponto de referência e direciona os meus passos durante o tempo em que estou vivendo o meu “quando”. O este é meu norte tem um sentido singular para mim.


*Devaneio sobre um poema de Vinícius de Moraes para a disciplina de Literatura Brasileira III, para o professor Norberto.

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sexta-feira, 17 de abril de 2009

Para não perder o encanto...

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"O mágico nunca conta os seus segredos.


O poeta nunca explica uma entrelinha."




Rita Apoena

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quinta-feira, 12 de março de 2009

Meu sangue transformando-se em hena...

.





“Meu coração se enreda nas mechas de Teus cabelos.

Desfaleço na contemplação de Teus olhos de narciso.

Todo o meu ser Te circunda.

Não vês meu sangue transformando-se em hena

Para adornar a planta de Teus pés?”




(MEHTA, 1994, p. 59)


MEHTA, Gita. O monge endinheirado, a mulher do bandido e outras histórias de um rio indiano. Tradução: Hildegard Feist. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

Título original: A river sutra (1993)
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quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Desejos para a primavera da alma...

.

Que minhas palavras sejam como pétalas de flor para colorir estradas e caminhos...

Que minhas palavras tenham a textura do momento que já passou e ficou na parte alegre de sua memória...

Que minhas palavras sejam suavemente rubras como o pôr-do-sol...



Que minhas palavras brilhem como estrelas e iluminem seus caminhos...

Que minhas palavras sejam claras como a luz do sol...

Que sejam macias como um sussurro ao pé do ouvido...



Que minhas palavras sejam ouvidas como uma bela canção...

Que elas tenham a intensidade necessária à cada situação...

Que minhas palavras sejam justas e verdadeiras...



Que minhas palavras tragam proteção e conforto...

Que minhas palavras sejam agradáveis como uma rede amarrada à sombra de uma árvore...

Que sejam límpidas como a mais terna lembrança...



Que minhas palavras sejam perenes ou momentâneas...

Que minhas palavras sejam firmes quando for necessário...

Que minhas palavras sejam como nuvens em um céu azul...

Que minhas palavras alçem voôs como balões, pipas ou bumerangues...

Que voltem de onde vieram carregadas com sua resposta...

Que ecoem pelos quatro cantos do mundo...

Que naveguem pelos sete mares...

Que se renovem como a flor...

Que frutifique...

Que originem sementes...

E que possam renascer todos os dias...

Este é o meu desejo...

Desejo que vem da alma e que volta para que amadureça em mim...



Potira

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